Jorge Romano: “Os processos de identificação que movem a política não mobilizam apenas a razão, mas também as emoções”
GABRIELLY CASIMIRO

O que faz um eleitor ignorar fatos em favor de uma narrativa? Para o pesquisador Jorge Osvaldo Romano, a resposta não está apenas no que é dito, mas em como o discurso é construído. Professor titular do CPDA/UFRRJ (Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro) e especialista na Teoria do Discurso, Romano dedica sua trajetória a entender as engrenagens do populismo e da construção de identidades políticas no Brasil. Em um cenário onde a desinformação e a polarização digital ditam o ritmo das urnas, suas pesquisas revelam que a política é, antes de tudo, uma disputa por sentidos.
As investigações conduzidas por Jorge Romano ganharam corpo a partir de uma articulação metodológica que une a Teoria do Discurso de matriz laclauniana (baseada em Ernesto Laclau e Chantal Mouffe) à abordagem de frame analysis (análise de esquemas interpretativos). Sob essa lente, o discurso vai muito além da fala tradicional, engloba propagandas televisivas, mídias sociais e as próprias performances e ações significativas dos candidatos. Essa metodologia fundamentou o acompanhamento de registros públicos nas eleições de 2018 (que gerou o livro Razão e Paixão, publicado pela Editora Veneta) e de 2022. A partir de julho deste ano, junto com o grupo de pesquisa Discurso, iniciou um terceiro momento para analisar continuidades e descontinuidades nas eleições de 2026.

O grupo de pesquisa Discurso, Redes Sociais e Identidades Sócio-Políticas (Discurso), liderado por Romano, reúne estudantes de pós-graduação do CPDA e da graduação em Relações Internacionais. Atualmente, eles finalizam um livro de divulgação científica voltado a traduzir essas teorias para o grande público, com capítulos que passam pelo populismo de esquerda e de direita, gênero e a digitalização do debate. Para Romano, publicar em espaços como o Le Monde Diplomatique Brasil é uma experiência de extensão, um compromisso social para munir o eleitor de ferramentas críticas que lhes permitam ler as entrelinhas do debate público.
Nesta entrevista, o pesquisador detalha como os afetos movem as urnas, explica as falhas das narrativas racionais e discute o papel do jornalismo diante da mercantilização do medo e da desinformação.
Em que momento você percebeu que a lógica do debate mudou e que o sentimento e as emoções passaram a valer mais do que os próprios fatos nas eleições?
Nos últimos 10 ou 15 anos, passei a lecionar teoria política e tenho focado nessa análise discursiva. A perspectiva de Ernesto Laclau veio a calhar para compreender os fenômenos eleitorais e a construção das identidades. O populismo funciona como uma lógica política que divide a sociedade em dois campos antagônicos por meio de uma fronteira, construindo um “nós” contra um “eles”. Trata-se de um processo de construção contingente, sem essencialismos, o que significa que as identidades e os processos de identificação que movem a política não mobilizam apenas a razão, mas também as emoções. Isso vai diretamente contra o senso comum da ciência política tradicional, que historicamente via as paixões, os afetos e as emoções como riscos para a ação política e como contradições da racionalidade, acreditando que as pessoas se organizavam unicamente por interesses definidos de forma racional. Consideramos que os afetos são componentes tão fundamentais quanto a razão para mobilizar pessoas e construir subjetividades. O sistema neoliberal, por exemplo, está centrado em um sentimento de angústia. Há angústia porque a economia neoliberal considera a desigualdade positiva e funciona concentrando poder e riqueza através de justificativas ideológicas como a meritocracia e o empreendedorismo. Na prática, ela exclui um grande grupo de pessoas e não oferece segurança para o futuro das novas gerações. Esse afeto de angústia e incerteza é facilmente transferido e canalizado para o medo, para a raiva e para o ódio.
Como podemos observar esse quadro em nossa conjuntura?
O populismo de direita, como o governo Trump ou a proposta de Bolsonaro no Brasil, se alimenta e mobiliza essa angústia para criar medos. Além disso, a permanente invasão na televisão de cenas de roubo e violência potencializa a sensação de insegurança, fazendo as pessoas demandarem ou aceitarem um Estado policialista repressor que limite liberdades em troca de proteção. O grande desafio atual é que o discurso dos setores progressistas e democráticos costuma ser basicamente um discurso racional, que não consegue lidar bem com o componente emocional. Como o filósofo Baruch Spinoza já dizia no passado, um afeto só é enfrentado e freado por outro afeto. Você não enfrenta o discurso do ódio e da angústia apenas com lógica. Frente aos afetos negativos que geram tristeza e medo, é preciso transmitir afetos que gerem alegria, amor, solidariedade, empatia e o “amor político”, enxergando o outro não como um inimigo a ser eliminado, mas como alguém com quem se deve ter empatia. O enorme desafio das forças democráticas hoje é construir uma narrativa que atenda à demanda real por segurança e proteção da população, mas que consiga transmitir paixões e afetividades centradas na justiça social, e não na discriminação.
Qual o papel do jornalista nesse cenário?
O papel de quem atua no jornalismo é ter a consciência de não entrar nessa lógica do ódio e reconhecer criticamente que a busca por segurança e proteção não é um problema exclusivo da direita; são sentimentos totalmente reais e legítimos do cidadão. O jornalismo não pode permitir que o medo associe a demanda por proteção à necessidade de mais repressão e violência. O papel atual é mostrar como a segurança e a proteção podem ser alcançadas através da solidariedade e da empatia, reconhecendo a pluralidade e a diversidade não como uma ameaça, mas como uma potência de convivência. O jornalismo pode construir uma agenda positiva mostrando o sucesso prático de políticas inclusivas, evidenciando, por exemplo, como as universidades e a sociedade ganharam com a diversidade trazida pelas políticas de cotas, tirando esses grupos da subalternidade. Da mesma forma, pode associar a proteção à justiça climática e à conscientização pelo fim do desmatamento. Ao mesmo tempo, o jornalismo deve denunciar como essa engrenagem do ódio e do medo é produzida pelas fake news no cenário da pós-verdade, onde os critérios de verdade são eliminados e a verdade passa a ser validada apenas pelo que o indivíduo sente.
No Brasil, a palavra “populista” é muito usada de forma pejorativa, quase como um xingamento político. O que define um discurso populista e por que ele atrai tantas pessoas?
A forma como nós percebemos o populismo, a partir da perspectiva de Ernesto Laclau, busca uma definição formal e lógica, e não de conteúdo ideológico. Integrado à teoria do discurso, o populismo implica, primeiro, o reconhecimento da divisão da sociedade a partir de uma fronteira que separa dois pólos antagônicos: de um lado o “nós, o povo”, e do outro “eles, os do poder, as elites”. O segundo componente é que esse “nós” e esse “eles” são contingentes e construídos politicamente no momento do confronto. A categoria “povo”, portanto, não é essencialista; ela se estabelece quando as pessoas se autoidentificam com as demandas daquele grupo — como o “povo lulista” ou o “povo bolsonarista”. O terceiro elemento é que o populismo articula e junta demandas diferentes que normalmente não estariam unidas através da oposição a um outro externo que as define. Um exemplo histórico no Brasil foi a campanha pelas Diretas Já na transição democrática. A luta contra a ditadura reunia anseios de reforma agrária, fim da repressão e direitos das mulheres; a pauta das eleições diretas esvaziou seu sentido estrito e passou a abraçar e representar todas as outras demandas daquela manifestação de mais de um milhão de pessoas. O mesmo ocorreu com a figura de Lula em 2002 e com Bolsonaro representando o seu conjunto de demandas em 2018. Por isso, o populismo em si não é bom nem mau, nem de esquerda ou de direita. É uma lógica política, um instrumento de análise da realidade que é acionado em momentos de crise de hegemonia. Se acionado pelo lado progressista, busca avançar na justiça social; se acionado pelo lado neoliberal e autoritário, aprofunda a desigualdade elegendo culpados. A reação negativa parte das elites, para quem tudo o que vem do “povo” é desagradável; usam “populista” como xingamento para desqualificar as massas por medo de que elas avancem.
Como o discurso consegue transformar um candidato em um símbolo de identidade pessoal? Como a narrativa constrói esse sentimento nas pessoas que dizem votar para defender a família ou o próprio estilo de vida?
A narrativa adquire eficácia quando consegue a adesão e ativa processos de identificação com os significados gerados. A diferença para a ciência política clássica é que ela acreditava que a adesão ocorria porque o eleitor concordava racionalmente com o programa do partido. Quando introduzimos a dimensão dos afetos, entendemos que o discurso populista possui um bônus de eficácia porque ele traduz esse programa em sentimentos que geram sentido real para as pessoas. Nós preferimos trabalhar com a noção de identificação em vez de identidade. A identidade é algo mais cristalizado e fixo, enquanto a identificação é um processo dinâmico e processual pelo qual o indivíduo vai se reconhecendo em certas demandas e passa a integrar um grupo, sendo remodelado constantemente. Na política eleitoral, o sonho dos políticos é cristalizar as identificações em identidades fiéis. É o que explica, por exemplo, o fato de a direita manter cerca de 30% de uma base fiel que se reconhece nela independentemente das contingências ou denúncias. Mas a dinâmica real da política mostra que as identificações flutuam de acordo com as narrativas que se impõem. Existem demandas chamadas de significantes flutuantes, que não pertencem estruturalmente a um único projeto e são disputadas. Veja o caso da “sustentabilidade”: é uma pauta histórica da agricultura familiar e da agroecologia; contudo, o agronegócio incorporou a sustentabilidade na sua narrativa, mas articulando-a ao mercado e ao lucro, alterando o seu sentido original. As identificações migram conforme a força das histórias contadas. Apelar para as identificações flutuantes e para as emoções não é um erro, é a engrenagem normal e concreta da política.
Você acredita que existe a possibilidade de uma política sem populismo no Brasil? A sociedade brasileira conseguirá voltar a debater propostas e ideias frias ou viramos reféns de uma disputa entre “quem eu sou” contra “o que o outro representa”?
Eu vejo que a sua pergunta traz no fundo, de forma implícita, uma avaliação que enxerga o populismo como algo necessariamente negativo, como se ele fosse uma deformação e nós precisássemos ter um saudosismo de um passado sem ele. Mas a política é, e sempre será, uma disputa de projetos; não existe um consenso final absoluto. Se houvesse um consenso absoluto, significaria que todos nós estaríamos aceitando passivamente todas as desigualdades que o sistema cria. O conflito político entre um projeto focado na igualdade e outro focado na desigualdade é saudável e vital; sem essa disputa não há democracia real. O limite ético é que o outro não pode ser transformado em um inimigo a ser eliminado, mas sim em um adversário com quem se compete aceitando regras básicas. O populismo trabalha nessa visão de disputa. Eu espero que o populismo continue existindo como uma ferramenta capaz de impulsionar o crescimento progressivo dos direitos e da justiça social no polo do povo, reduzindo o poder das elites e do sistema neoliberal. Atualmente, o sistema neoliberal — baseado na financeirização de todas as relações sociais — não aceita mais a democracia. Não há mais espaço econômico para o retorno de uma democracia liberal clássica baseada em um Estado de Bem-Estar Social. Consequentemente, os benefícios e a proteção social hoje só conseguem ser alcançados por meio de governos populistas progressistas. Essa visão saudosista de uma democracia liberal pura ignora que aquele modelo era profundamente elitista. Naquela velha democracia liberal que tratam como ideal, o pessoal das favelas e os setores populares não existiam no debate; os direitos das mulheres e dos homossexuais eram totalmente limitados, e o restante da população era convocado apenas para apertar o botão nas urnas. O que nós precisamos hoje não é o fim do populismo, mas sim a radicalização da democracia através da expansão e geração de novos direitos. E essa expansão que tensiona e quebra as amarras das relações institucionais vigentes encontra no populismo progressista o seu caminho. Um populismo de direita pode ser essencialmente oligárquico; mas o populismo progressista é essencialmente democrático porque ele constitui, justamente, o espaço de manifestação do povo.
O livro Paixão e Razão (2019) está disponível em https://diplomatique.org.br/wp-content/uploads/2019/03/livropaixaoerazao.pdf pode ser baixado gratuitamente.
Entrevista realizada em maio de 2026
Imagem Diretas Já: Arquivo/Agência Brasil
Revisão: Alessandra de Carvalho e Isabelle Valente
Exercício da disciplina extensionista Jornalismo Científico, do Departamento de Comunicação e Mídias (ICHS), ministrada no primeiro semestre de 2026 pela professora Alessandra de Carvalho.