O vestir cotidiano: aula aberta traz debate sobre moda e territórios invisibilizados

Anos após cursar um semestre de Ciências Sociais na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), a historiadora Carol Lardoza retornou aos espaços da instituição para um importante reencontro com as suas raízes acadêmicas. No dia 04 de setembro, a convite da professora Érica Paes, do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Territorial e Políticas Públicas (PPGDT), ela ministrou a palestra O Vestir Cotidiano: Moda, Trabalho e Territórios Invisibilizados, realizada no Auditório Paulo Freire, do Instituto de Ciências Humanas e Sociais.
Nascida e criada no bairro de Bangu, Carol leva diariamente para as suas redes sociais o que define como uma perspectiva realista da moda. Para ela, adotar esse olhar significa afastar o distanciamento abstrato das passarelas e enxergar a roupa pelo que ela é na prática, funcionando como uma verdadeira armadura cotidiana. Para a pesquisadora, as escolhas de vestuário da classe trabalhadora, especialmente na Zona Oeste, na Baixada Fluminense e nas periferias, refletem estratégias de sobrevivência para enfrentar as surpresas, os ritmos e os desafios das ruas.
O interesse pelo tema vem de berço, inspirado pela convivência com a mãe costureira, e ganhou profundidade teórica durante a graduação em História na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde encontrou, em história da moda e a iniciação científica, o caminho para unir o passado, o cinema e o cotidiano.

Um dos pontos centrais da sua aula foi a reflexão sobre protagonismo e descentralização da moda contemporânea. Lardoza fez um discurso contundente sobre a importância de fazer com que as pessoas invisibilizadas da periferia deixem de ser vistas apenas como consumidoras e passem a ser reconhecidas como produtoras de cultura e economia.
A pesquisadora também criticou fortemente a centralização dos grandes eventos de moda nas áreas nobres do Rio de Janeiro, evidenciando o abismo entre a grande indústria e a realidade da classe trabalhadora. Em um dos momentos mais marcantes, ela compartilhou uma frase de seu pai que sintetiza essa desconexão ao perguntar por que o Rio Fashion Week nunca acontece no Shopping Bangu.
A passagem de Carol pela UFRRJ marcou não apenas um reencontro com suas raízes, mas um convite urgente para repensar para quem e por quem a moda é feita no Brasil.
Texto e imagens: João Leonel – estudante do 2º período de jornalismo, bolsista do ICHS/PDAI/Proaes
Supervisão: Alessandra de Carvalho – professora do curso de jornalismo