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Humanidades

UFRRJ - ICHS - CAMPUS SEROPÉDICA

Jéssica Santana: “Durante muito tempo, predominou a ideia de que a viuvez levava ao recolhimento e ao silêncio social”

Postado em 15 de setembro de 2026

ISABELLE VALENTE

Jessica Santana em seu ambiente de pesquisa

Durante o Segundo Reinado, no Brasil Império, a vida das mulheres era caracterizada pelo confinamento doméstico e submissão aos padrões patriarcais. Aos olhos da sociedade, elas eram consideradas frágeis e incapazes de ter autonomia. Apesar disso, na ausência dos maridos, pais ou irmãos, elas assumiam o posto de comando em suas casas e fazendas, tornando-se o sustentáculo da família e longe de serem meras espectadoras da gestão comercial de seus cônjuges.

Esse cenário de protagonismo feminino é evidenciado na tese de doutorado de Jessica Santana Alves, realizada no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Intitulado “À frente dos negócios: a atuação de viúvas na direção de comércios de secos e molhados na cidade do Rio de Janeiro (1850-1889)”, o trabalho investigou a trajetória de mais de 50 viúvas de comerciantes portugueses que passaram a comandar os negócios após o falecimento dos maridos. A pesquisa aprofundada baseou-se em arquivos digitais, registros paroquiais, processos judiciais e de óbito, anúncios de jornais e no Almanak Laemmert (registro administrativo que listava os comerciantes no período).

Nesta entrevista, a pesquisadora, que teve sua tese premiada com menção honrosa pela Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) na edição de 2025, compartilha como iniciou o seu interesse pelo tema, detalha os principais achados e discute o impacto de suas conclusões, fundamentais para reconfigurar a compreensão sobre o ‘futuro’ dessas mulheres.

Como surgiu o interesse por esse tema?

Surgiu ainda na graduação, quando eu comecei a trabalhar com uma documentação paroquial do séc. XIX sobre Itaguaí, porque participei do Programa de Educação Tutorial em História da UFRRJ. Em meio a esses registros, comecei a perceber a presença constante de mulheres viúvas como proprietárias. Isso me impulsionou a desenvolver o meu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) e, em seguida, a minha dissertação de mestrado sobre elas administrando bens, negociando, tomando decisões e organizando redes familiares e econômicas — o que contrastava diretamente com uma imagem muito difundida sobre as mulheres como figuras reclusas, passivas e afastadas da vida pública.Nesse primeiro momento, eu pesquisei mulheres cafeicultoras e, quando quis dar continuidade no doutorado, decidi focar em mulheres comerciantes. Essa categoria já aparecia frequentemente nas fontes de Itaguaí, e eu sempre nutri essa curiosidade sobre mulheres atuando em comércios a varejo. Ao desenvolver a minha tese de doutorado, mudei o recorte espacial: deixei de pesquisar Itaguaí e passei a pesquisar a cidade do Rio de Janeiro, onde encontrei uma gama de documentação sobre mulheres comerciantes. Então, o meu interesse sobre esse tema foi amadurecendo ao longo da minha trajetória de pesquisa, desde o meu segundo período da graduação, quando eu comecei a manusear fontes do séc. XIX — e, trabalhando com essa documentação, me deparava justamente com trajetórias de mulheres que eram diferentes de como eram comumente retratadas.

Quais foram os desafios metodológicos para encontrar os rastros dessas viúvas, visto que elas costumavam ser silenciadas por trás de imagens de reclusão?

O maior desafio metodológico foi conseguir reunir informações necessárias para reconstruir trajetórias porque, quanto mais eu mobilizava as fontes, eu percebia que o problema não era exatamente a ausência das mulheres na documentação, mas a forma como elas apareciam — muitas vezes de maneira indireta, fragmentada, ou mediada por discursos masculinos e jurídicos. Por isso, o maior desafio foi desenvolver esse olhar atento para as fontes e realizar cruzamentos de inventários post-mortem, testamentos, registros paroquiais, processos judiciários e publicações de jornais, para reunir informações que muitas vezes não apareciam de forma linear ou explícita. Uma das fontes que eu utilizei para identificar as viúvas comerciantes foi o Almanak Laemmert, registro administrativo que listava os comerciantes no período com o nome da pessoa proprietária da casa comercial, o endereço e o tipo de atividade. Quando fui pesquisando essas listas enormes, eu via, às vezes, “viúva Silva”, “viúva Oliveira” — a classificação do estado civll somada ao sobrenome do marido. Às vezes aparecia o nome completo da mulher, o que era uma felicidade muito grande, mas na maioria das vezes não. E como achar essas mulheres? Eu tive que fazer uma busca nominativa muito exaustiva: procurava pelo endereço da casa comercial, pelo sobrenome; quando achava o endereço, às vezes encontrava o nome de um sócio, e desse nome ia buscando até encontrar os nomes dos pais e o nome da viúva. Foi um desafio muito semelhante ao trabalho de um detetive. Toda vez que eu descobria o nome de uma dessas mulheres, eu comemorava. Eu tive um corpo documental de mais de 50 mulheres. Somado ao desafio de pesquisar mulheres, houve o desafio de enfrentar certos estereótipos voltados às viúvas, já que durante muito tempo predominou a ideia de que a viuvez levava necessariamente ao recolhimento e ao silêncio social. Mas, quando a gente observa a documentação, eu consegui perceber que muitas viúvas exerciam funções centrais na administração familiar, na circulação de bens e na manutenção de redes de poder local. A pesquisa também buscou questionar essas imagens cristalizadas e mostrar que essas mulheres atuavam de maneira muito mais complexa do que tradicionalmente se imaginava.

Quem eram essas mulheres? Qual era o perfil social e de onde vinham essas viúvas que assumiram a liderança dos negócios?

O perfil social dessas mulheres era composto por mulheres livres, proprietárias e pertencentes a famílias que detinham bens e uma condição social mais abastada na cidade do Rio de Janeiro. O máximo de informações que eu consegui encontrar foi sobre a origem, ou às vezes o cargo do pai, que era comerciante ou então ocupava cargos militares. O que dava para perceber é que elas eram de famílias que detinham posses na cidade, e muitos desses arranjos de matrimônio também serviam para consolidar uma posição social. Elas eram, em sua maioria, portuguesas ou filhas de portugueses — parte dessa corrente migratória que veio para o Brasil e que, principalmente, saiu da região do Bispado do Porto para consolidar sua posição na sociedade carioca, principalmente através do casamento e de uniões comerciais. Nos documentos, nunca vinha informando a cor dessas mulheres. Nos poucos casos que eu consegui identificar — acho que foram 7 —, todas foram classificadas como mulheres brancas, filhas de portugueses, algumas introduzidas nesse universo comercial a partir do casamento com os maridos. Teve um caso de uma dessas viúvas que era órfã: ela estava em um orfanato antes de se casar com esse comerciante, se tornar viúva dele e herdar o comércio. Então, pode ser que em alguns casos a origem dessas mulheres não seja tão abastada, mas eu não posso afirmar categoricamente. A maioria que eu consegui encontrar são, sim, mulheres proprietárias de famílias que detinham bens, estabelecimentos comerciais e casas, e que faziam parte de uma sociedade bem posicionada economicamente na cidade do Rio de Janeiro, mesmo que os comércios que elas vieram a herdar não fossem de grande escala.

É possível afirmar que essas mulheres já atuavam informalmente na gestão dos armazéns ao lado de seus maridos, antes mesmo da viuvez?

A trajetória dessas mulheres que estudei revelou que o cotidiano dos negócios estava profundamente entrelaçado com a vida familiar. As casas comerciais normalmente ficavam em sobrados: no andar de baixo; em cima, ficava a casa em que essas pessoas moravam. Não era regra — algumas casas comerciais vão se constituir de outra forma —, mas, na maioria dos casos, era frequente. É possível perceber que essa relação cotidiana do comércio estava muito entrelaçada com o cotidiano da família. Houve um caso emblemático, o da Dona Sabina Rosa, que, antes de se tornar viúva e ficar à frente dos negócios, tomava conta do estabelecimento comercial e administrava aquele comércio enquanto o marido viajava. Um dos casos registrados nos jornais foi o de que o marido ficou ausente por oito meses porque foi para Portugal tratar da saúde; os documentos mostram que ela lidava com a demanda de clientes e fornecedores, organizava a entrada e saída de gêneros e supervisionava o trabalho dos caixeiros. Isso é muito interessante porque há uma invisibilidade desse trabalho, já que essas mulheres muitas vezes estavam ali auxiliando, seja na parte financeira da contabilidade dos negócios, seja prestando alguns serviços como, por exemplo, cozinhar para os caixeiros que trabalhavam ali. Só que é um trabalho que é invisibilizado enquanto o marido está à frente daquele negócio, ou é tido como um trabalho complementar, como se fosse uma extensão desta atividade do marido. Quando estudei as cafeicultoras, essas mulheres estavam por dentro das atividades das fazendas e do controle da produção alimentícia, realizando empréstimos para a população local, o que ficava, muitas vezes, invisibilizado frente às atividades do marido. Eu penso que, sim, elas estavam atuando informalmente na gestão desses comércios de secos e molhados e, quando se tornam cabeças de casal e assumem a posição de viúvas, acabam se tornando oficialmente administradoras desses negócios. Antes disso, porém, estavam com essas ajudas permeadas; desde quando se casaram com esses comerciantes, estavam dentro daquele estabelecimento comercial fazendo parte das atividades que eram desempenhadas.

Como a viuvez impactou a vida dessas mulheres? Ela representou uma desestruturação social ou funcionou como um catalisador para o protagonismo econômico delas?

O primeiro impacto que a viuvez causa na vida dessas mulheres é elas ocuparem esse lugar de cabeça de casal, que é o chefe da família: a pessoa que vai decidir sobre as questões econômicas, a organização social e política daquela família. Quando assumem essa posição, a percepção social sobre elas é como pessoas que respondem por aquela família. Isso não é da noite para o dia; essa percepção social não é automática. Muitas dessas mulheres tiveram que se reinventar e sempre ir mostrando a sua capacidade. No primeiro momento, quando tiveram que lidar com o processo de inventário (e destaquei muito isso na minha tese), elas vão encontrando várias dificuldades para poder se impor, responder por aqueles bens, para cobrar dívidas. Entra-se, então, nesse ponto sobre a desestruturação social ou catalisador. Acho que é um pouco das duas coisas, a depender de como estava a situação daqueles bens familiares quando elas assumem essa posição de protagonismo, porque, em alguns casos, o marido deixava muitas dívidas e a casa comercial à beira da falência. Quando assumem, elas têm que lidar com diversas cobranças de dívidas de terceiros: pagar as dívidas que o marido tinha e cobrar as dívidas que outras pessoas deviam a ele. Isso poderia significar a desestruturação do patrimônio da família: ter que vender bens, leiloar bens. Aparecem em notícias de jornais muitas viúvas leiloando bens familiares para conseguir pagar as dívidas do falecido marido. A gente vê esse protagonismo a partir do momento em que a percepção social sobre elas vai mudar; as pessoas vão começar a olhar para essa mulher como uma pessoa responsável por aquela família. Isso traz uma emancipação, um protagonismo de ela poder responder às demandas por conta própria, mesmo que, às vezes, tivesse a figura de um procurador homem, ou de um filho mais velho que auxiliasse na administração dos bens; mas a resposta era dela. Era ela quem aparecia como proprietária, era ela quem aparecia como administradora. Ao mesmo tempo, essa desestruturação era muito possível: de estar à frente desses bens e estar um caos. O que percebi era que essas mulheres tinham um jogo de cintura para poder manter a manutenção do seu patrimônio diante dessas circunstâncias.

Como essas viúvas articulavam sua autonomia comercial sob a vigência do restritivo Código Comercial de 1850?

O Código Comercial de 1850 era bem restritivo às mulheres, principalmente às mulheres solteiras que estavam sob a tutela dos pais e às mulheres casadas, que dependiam da autorização dos maridos para poder comercializar oficialmente. Para as mulheres viúvas, ele tinha prerrogativas que elas conseguiam mobilizar a seu favor. A primeira delas é: na posição de viúvas, assumiam a administração comercial; eram reconhecidas na sociedade comercial, na praça de comércio, como administradoras daquela casa comercial. Uma das prerrogativas era a separação do patrimônio familiar da sociedade comercial. Então, por exemplo, vamos supor que o falecido marido tinha uma sociedade comercial com uma outra pessoa, mas o marido faleceu: havia essa divisão. Quando a viúva ia fazer os inventários dos bens, fazer a divisão para os filhos, havia essa separação do que era o patrimônio familiar do que era a casa comercial. Essa divisão era boa porque, às vezes, havia muitos sócios, muitas dívidas. Na hora de fazer a divisão, não atrapalhava os herdeiros e dava mais segurança jurídica aos bens da família. O Código Comercial também dava possibilidade de a mulher dar prosseguimento às atividades com novos arranjos contratuais: continuar com os sócios antigos; não precisava abrir mão da sociedade que já estava fundada na vigência do marido por outra. Se quisesse continuar com os antigos sócios, ela poderia continuar. Era uma prerrogativa interessante para ela — seria vantajoso. Cerca de 39% das viúvas que estudei optaram por formar sociedades comerciais, a ter essa estratégia para auxiliar a administração do comércio. Eu penso que esse Código Comercial, quando mobilizado por essas viúvas, tinha prerrogativas que as auxiliavam a ter essa autonomia.

O que a pesquisa revela sobre o “futuro” dessas mulheres e sobre os limites de gênero da época?

Eu penso que a pesquisa me ajudou muito a reinterpretar o papel social e econômico dessas mulheres, em que elas saem de uma condição de meras espectadoras e se tornam protagonistas ativas. No geral, as pesquisas sobre mulheres viúvas têm uma tendência de pensar que essas mulheres vão assumir um protagonismo, ganham uma autonomia, como se não tivessem isso antes; como se não tivessem nenhum protagonismo antes e nenhuma agência antes. O marido faleceu e, no dia seguinte, elas assumem uma agência. O que tentei mostrar com a minha pesquisa é que não é assim, não acontecia da noite para o dia. Elas tinham agência tanto dentro do ambiente familiar quanto do ambiente comercial, só que essa agência era secundarizada, era invisibilizada. Com a pesquisa eu consegui pensar nessa visibilidade formal de elas assumirem essa posição de cabeça de casal, de administradoras da casa comercial, mas também refletir sobre essa invisibilidade, sobre essa transição da invisibilidade para a visibilidade de mulheres que, por muito tempo, foram silenciadas pela figura jurídica dos maridos. Elas começam a aparecer nos registros oficiais dos cartórios, dos tribunais, como donas e gestoras. Nesses espaços, revelam habilidades que já possuíam anteriormente. Isso não quer dizer que só porque ela tinha um marido comerciante que ela também seria uma boa comerciante: às vezes a pessoa não tem habilidade, não gosta de trabalhar no comércio, não tem interesse pela administração da casa comercial, ou acha aquilo complicado. Em alguns casos, algumas delas preferiam entregar para o sócio, porque alguns entram com dinheiro, outros entram com administração. Algumas delas optaram por isso: deixar que outra pessoa assumisse a administração oficial do comércio, enquanto elas cediam a casa comercial e usufruíam os benefícios dos lucros. Outras preferiram continuar à frente do negócio sem firmar sociedade. Isso mostra um pouco dessa autonomia econômica delas. Elas não só herdaram bens, mas articularam estratégias complexas com formação de sociedade, gestão de dívidas, diversificação de investimentos para garantir a manutenção do status social e sustento da família. A gente tem que refletir sobre o deslocamento dos limites de gênero, que eram tradicionalmente impostos aos papéis de gênero, mostrando que elas assumiram responsabilidades públicas legais que antes eram reservadas exclusivamente aos maridos, redefinindo fronteiras, inclusive o espaço doméstico e público, desafiando a noção de mulher reclusa que só saía aos domingos para ir à igreja. Sobre o futuro dessas mulheres, eu penso que a pesquisa ajuda a entender como essas mulheres eram estrategistas, como tinham agência nas tomadas de decisão, como faziam escolhas para poder conseguir sustentar as suas famílias e manter o status social.

A tese “À frente dos negócios: a atuação de viúvas na direção de comércios de secos e molhados na cidade do Rio de Janeiro (1850-1889)” está no Repositório Institucional de Acervos (RIMA): https://rima.ufrrj.br/jspui/handle/20.500.14407/22271

Entrevista realizada em 29 de maio de 2026.

Imagens: arquivo pessoal de Jéssica Santana Alves
Revisão: Pedro Florencio e Alessandra de Carvalho

Exercício da disciplina extensionista “Jornalismo Científico”, do Departamento de Comunicação e Mídias (ICHS), ministrada no primeiro semestre de 2026 pela professora Alessandra de Carvalho.