Criatividade sem limites: a feirinha do P1
Postado em 8 de abril de 2011
por Mariana Dias
A feira que acontece no Prédio Principal da UFRRJ (P1) toda primeira semana do mês se tornou também uma relação de amizade entre seus realizadores e as pessoas que por ali passam.
Criatividades sem Limites é o nome do grupo de artesãs que se reúnem no P1 para expor seus trabalhos e vendê-los. O grupo surgiu em 2005, eram 10 mulheres que tinham o artesanato como atividade afim. Com a ajuda e o apoio do reitor da Universidade, conseguiram consolidar a feira. Hoje, são mais de 30 pessoas. Elas não pagam pelo espaço, apenas se organizaram entre si para reunir uma “caixinha” de R$10 mensais. Com este dinheiro, costumam realizar “festinhas” de confraternização de fim de ano, ou até mesmo comemoração de aniversários. Há três anos, o reitor solicitou que elas padronizassem a feira, visando dar um ar mais organizado e menos poluído ao prédio. Elas construíram um logotipo, um nome, um uniforme. Trocaram as barracas de ferro pelas bancadas e colocaram toalhas laranjas em todas elas, tudo objetivando a uniformização do local. Procuram manter-se organizadas. Possuem uma coordenadora, Maria Regina; duas secretárias, Rosangela e Roberta; uma tesoureira, Cátia; e três conselheiras fiscais, Nilsa, Fátima e Fábia.
As toalhas laranjas foram colocadas para a padronização da feira
| Foto de Mariana Dias |
O pré-requisito para estabelecer uma barraquinha na feira é produzir algo que ainda não exista por lá. O resultado é um produto diferente e caracterizado, até para que não se crie concorrência entre as expositoras. “O objetivo é expor produtos que se diferenciam e criar a partir daí um fluxo de amizades entre os artesãos.”- ressalta Rosangela.
Rosangela conta que a feira já foi realizada no ICHS durante o ano de 2009 e (uma vez) em 2010. Lá, até conseguiram um bom lucro, mas o espaço não comporta o número de barracas. Outro problema no local era a dificuldade de locomoção. No IB também já fizeram algumas vezes, mas a escassa movimentação de pessoas não gerou lucros.
As artesãs costumam ter um bom rendimento lucrativo durante o tempo que permanecem na Rural. No restante do mês, trabalham muito com encomendas.
Por que toda primeira semana do mês, Dona Luzinete?
O motivo de ser toda primeira semana é que as expositoras acabam tendo público, não apenas os alunos e funcionários da Universidade, mas também aposentados e moradores de Seropédica.
| Dona Luzinete em foto de Mariana Dias |
– É quando o pessoal vem ao banco pagar contas, receber a aposentadoria, resolver os problemas. A gente acaba revendo velhos amigos e não perdendo os vínculos com eles. – destaca a artesã Luzinete.
Ela tem sua barraquinha na feira há quase três anos. Faz puxa-saco para cozinha, toalha de mesa, peso de porta e tudo com estopa, que é o velho saco de batatas. Dona Luzinete contou que veio da Paraíba com nove anos. Quando chegou ao Rio, especificamente em Seropédica com sua família, sentiu muito a diferença com o clima local, já que aqui as estações eram bem definidas em cada época do ano, o inverno rigoroso demais para o que eles estavam acostumados. A mãe da artesã passou a colocar um forro nos “sacos de batatas” e usar como cobertor. “Foi o que nos salvou do frio.” – comenta emocionada. Ironicamente, hoje Luzinete usa a estopa para fazer seus artesanatos.
– Uma vez, há muito tempo, uma amiga me trouxe um puxa-saco de Brasília, feito de estopa, mas não era bordado com fitas. Depois de muito tempo de uso, já estava tão velho e resolvi reformá-lo. Então, surgiram esses que faço hoje.
Luzinete lembra ainda como começou a fazer seus artesanatos:
– Eu trabalhei a vida toda como funcionária publica, no Decanato de Graduação da Universidade. Foi meu primeiro e último emprego. A gente trabalhava muito. Eu peguei o momento em que as matrículas e todo o acompanhamento do estudante era feito por fichas, manuscritos. Depois de uma vida toda de mãe separada, cuidando da casa e vivendo pelo filho, me aposentei e não sabia o que fazer do meu tempo livre. Resolvi então começar a fazer esses trabalhos para dentro de minha casa. Depois, para as vizinhas e amigas. Elas sempre me diziam para eu expor o trabalho, mas eu tinha medo das pessoas não gostarem. Um dia, resolvi tentar, vim para a feira da Universidade. A gente gosta tanto daqui que, depois que se aposenta, não quer se desligar nunca!
Um nova forma de viver
Para a maioria dos artesãos, a feira é muito mais do que uma fonte complementar de renda. Quase todos são aposentados e encontraram ali uma nova forma de viver e de encarar a vida.
– Não é só pelo dinheiro sabe? É um jeito de fazer amigas, manter relações sociais, conhecer e conviver com pessoas novas e diferentes. – explica Dona Fábia, ex-professora do ICHS.
| Dona Fábia em foto de Mariana Dias |
Ela é aposentada há quatro anos, depois de ter dado aula durante 30 anos no curso de Administração. Após a aposentadoria, deparou-se com o mesmo problema que atinge muitos no Brasil, a ociosidade. Resolveu fazer um curso de decoupagem, com o objetivo de aprender a realizar decoração em caixinhas de madeira. Dentro desse curso, descobriu a arte-francesa. Desde então, trabalha com esse tipo de artesanato. A arte francesa consiste na montagem de quadros que têm imagens sobrepostas, e dá uma ilusão de movimentos.
– É um trabalho difícil e caro. As pessoas não costumam dar ao artesanato o valor que ele realmente tem. Mas eu não faço pelo dinheiro. Faço pela satisfação de fazer, para ocupar meu tempo e me distrair. – completa
Amizade
Amizade é como a secretária da organização
Criatividade sem Limites define a relação entre elas. Rosangela faz tricô e crochê, entre roupas e acessórios. Diz que é muito bom poder se sentir útil, ter sua própria fonte de renda e, além de tudo isso, ainda conseguir conviver com pessoas tão boas por perto.– Meu marido trabalha na Universidade há muito tempo. Nós já moramos aqui dentro e minha relação com esse lugar é de longa data. Hoje, participo também do coral da Universidade e adoro! Eu não sabia que qualquer um da comunidade pode participar, achei que fosse destinado só a alunos.
Criatividade sem Limites não é apenas um feira, é um novo modo de encarar a vida para vários aposentados que perderam o sentido de viver depois da aposentadoria. Todos eles encontraram na feira uma nova forma de sentir-se útil e conviver com os outros. Ao andar pela feira, podemos observar senhoras conversando ao lado de suas bancas, trocando ideias, contando e relembrando histórias e até trocando receitas de bolo.
| Foto de Mariana Dias |
Vale a pena conferir, além de todo esse clima de alto astral, os produtos são muito interessantes. A feira comporta barracas com produtos realizados com fibras vegetais, crochê, bijuterias das mais variadas, blusas customizadas e bordadas, bolsas, chaveiros, produtos reciclados, quadros de óleo e acrílico, arte francesa, gesso e várias outros. Acontece toda primeira semana de cada mês, no corredor de entrada no P1, do lado direito. Das 8h até por volta das 17h30m, dependendo do movimento.