A Securitização e a Estratégia dos Estados Unidos na Guerra ao Terror no Pós 11 de setembro (2001-2008)

Autora: Oksanne Resende Dall’ Alba Silveira

O trabalho está baseado no TCC orientado pela professora Marina Vitelli e defendido em 2023

Resumo

Este artigo analisa a Guerra ao Terror (GaT) dos Estados Unidos no pós-11 de Setembro (2001-2008) pela perspectiva da teoria da securitização. Examina como o discurso de segurança legitimou ações militares e políticas antiterrorismo, destacando a construção da ameaça terrorista como justificativa para intervenções e fortalecimento do aparato de segurança.

Palavras Chaves: Securitização; Estados Unidos; Guerra ao Terror

 

INTRODUÇÃO

 

Os atentados de 11 de setembro de 2001 representaram um dos eventos mais impactantes do início do século XXI, alterando profundamente a política internacional e as dinâmicas de segurança global. Os ataques terroristas coordenados contra o World Trade Center em Nova York e o Pentágono em Washington, D.C., não apenas causaram uma tragédia humana de proporções históricas, mas também redefiniram a política externa dos Estados Unidos, dando início à chamada “Guerra ao Terror” (GaT). Essa estratégia, adotada pelo governo de George W. Bush, não se limitou a combater organizações terroristas, como a Al-Qaeda, mas também buscou securitizar a ameaça terrorista, transformando-a em uma questão de segurança nacional que justificou intervenções militares e a expansão do aparato de segurança no Oriente Médio, especialmente no Afeganistão e no Iraque.

Este artigo propõe-se a analisar a Guerra ao Terror no período pós-11 de setembro (2001-2008) pela perspectiva da teoria da securitização, desenvolvida pela Escola de Copenhague. A securitização, como conceito, refere-se ao processo pelo qual uma questão é elevada ao status de ameaça existencial, permitindo a adoção de medidas extraordinárias que transcendem as práticas políticas normais  (Booth, 1997). Nesse sentido, o discurso político desempenha um papel central na construção dessa ameaça, legitimando ações que, em outras circunstâncias, seriam consideradas excessivas ou antidemocráticas. A análise concentra-se no governo Bush, período em que a securitização do terrorismo islâmico foi intensificada, e examina como o discurso de segurança foi utilizado para justificar intervenções militares e políticas de segurança nacional.

 

A TEORIA DA SECURITIZAÇÃO

 

A securitização, conforme definida pela Escola de Copenhague, é um processo discursivo no qual uma questão é elevada ao status de ameaça existencial, permitindo a adoção de medidas excepcionais que transcendem as práticas políticas normais (Buzan et al., 1998). Como destaca Duque (2009), o estudo da securitização está intrinsecamente ligado ao discurso, pois as palavras empregadas para categorizar problemas como ameaças não são meras expressões linguísticas, mas veículos de ação que convocam a tomada de medidas de contraposição. Nesse sentido, o discurso desempenha um papel central na construção e na gestão das questões de segurança, moldando a percepção das ameaças e legitimando as ações a serem tomadas.

No contexto da Guerra ao Terror, o discurso político do governo Bush foi fundamental para securitizar o terrorismo islâmico. Os atentados de 11 de setembro foram retratados como um evento singular e sem precedentes, um “marco de mudança global” que demandava uma resposta excepcional. Essa narrativa foi construída cuidadosamente por meio da escolha estratégica de palavras e imagens, que buscavam mobilizar o apoio público e internacional para as intervenções militares. Em seu primeiro discurso após os ataques, o presidente Bush declarou: “Hoje, nossos concidadãos, nosso modo de vida, nossa liberdade, foram atacados em uma série de atos terroristas deliberados e mortais” (Bush, 2001). Essa fala não apenas descreveu os eventos, mas também construiu uma narrativa que associou os ataques a uma ameaça existencial aos valores fundamentais dos Estados Unidos.

A securitização do terrorismo islâmico foi reforçada pela construção de uma dicotomia entre o “self” americano e o “other” terrorista. Como argumenta Wendt (1999), as identidades estatais são construídas por meio de interações sociais e influenciam as relações internacionais. No discurso de Bush, os Estados Unidos foram retratados como um “farol de liberdade e oportunidade”, enquanto os terroristas foram descritos como “o pior da natureza humana” (Bush, 2001). Essa polarização entre o bem e o mal foi essencial para mobilizar o apoio público e justificar medidas excepcionais, como a invasão do Afeganistão e do Iraque.

A narrativa de Bush também enfatizou a ideia de que os terroristas se opunham não apenas ao poder militar e econômico dos Estados Unidos, mas também aos seus valores culturais e morais. Como observa Santos (2018), essa abordagem foi elaborada estrategicamente para demonstrar que os ataques buscavam aniquilar a essência dos Estados Unidos como nação democrática e promotora da civilização. Ao vincular a resposta à noção de defesa da nação e de seus princípios, Bush procurou assegurar um apoio mais amplo às medidas adotadas, mesmo aquelas que implicavam em sacrifícios das liberdades individuais em nome da segurança coletiva.

 

O CASO DO AFEGANISTÃO

 

Após os atentados de 11 de setembro, a intervenção no Afeganistão foi justificada pelo governo dos Estados Unidos como uma questão de segurança nacional e um esforço para combater o terrorismo global. O presidente George W. Bush construiu uma narrativa que contrastava os valores americanos, como liberdade e civilização, com a barbárie dos terroristas, retratando o Afeganistão como um “estado falido” que abrigava a Al-Qaeda. Essa dicotomia entre o “self” americano e o “other” terrorista foi essencial para legitimar a invasão militar em 2001 e a adoção de medidas extraordinárias, como a criação da prisão de Guantánamo Bay, onde suspeitos de terrorismo foram detidos sem julgamento e sujeitos a tratamentos desumanos. A securitização do Afeganistão permitiu que violações de direitos humanos fossem justificadas como necessárias para a segurança nacional, destacando o poder do discurso na construção de ameaças e na mobilização de apoio público e internacional (Jackson, 2009; Duque, 2008; Santos, 2018).

A narrativa de Bush enfatizou que a intervenção no Afeganistão era parte de um esforço global para proteger a civilização contra o terrorismo. Ao retratar os terroristas como inimigos da liberdade e da democracia, o governo americano conseguiu legitimar ações militares e políticas de segurança que, em outras circunstâncias, seriam questionadas. A eficácia da securitização foi evidenciada pelo apoio público às medidas excepcionais, mesmo diante de violações de direitos humanos. Essa estratégia discursiva não apenas justificou a invasão do Afeganistão, mas também reforçou a ideia de que os Estados Unidos estavam defendendo valores universais, como a liberdade e a paz, contra forças hostis e ameaçadoras (Bush, 2001; Hansen, 2006; Oliveira, 2009).

 

O CASO DO IRAQUE

 

O caso do Iraque no contexto pós-11 de setembro é um dos episódios mais controversos da Guerra ao Terror. A invasão do Iraque em 2003 foi justificada pelo governo Bush como uma resposta necessária a uma ameaça iminente, apesar da falta de evidências concretas que ligassem o regime de Saddam Hussein aos ataques de 11 de setembro ou à posse de armas de destruição em massa (ADMs). Por meio de uma campanha de securitização, o Iraque foi retratado como uma “bomba-relógio” que representava um perigo global, com alegações de que Saddam Hussein estava acumulando ADMs e colaborando com grupos terroristas. Essa narrativa, embora não comprovada, foi eficaz em mobilizar apoio público e internacional, permitindo que os Estados Unidos invadissem o país sem a aprovação do Conselho de Segurança da ONU. A retórica de urgência e ameaça existencial foi crucial para justificar ações excepcionais, como o uso de tortura e detenções indefinidas, que seriam inaceitáveis em circunstâncias normais (Hughes, 2007; Duque, 2008).

A securitização do Iraque ilustra como o discurso político pode ser usado para construir narrativas persuasivas, mesmo na ausência de evidências concretas. Apesar das controvérsias e da falta de ADMs encontradas após a invasão, a narrativa de que o Iraque representava uma ameaça iminente foi eficaz em justificar a intervenção militar e a adoção de medidas extremas. Esse caso destaca o poder da retórica na política internacional e levanta questões éticas sobre o uso do discurso para legitimar ações que violam princípios democráticos e direitos humanos. A invasão do Iraque permanece como um exemplo marcante de como a securitização pode ser instrumentalizada para justificar guerras e políticas controversas.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

A análise da Guerra ao Terror no período pós-11 de setembro, com foco nas intervenções no Afeganistão e no Iraque, revela o poder do discurso político na construção de narrativas que justificam ações militares e medidas excepcionais. Por meio da teoria da securitização, o governo dos Estados Unidos transformou o terrorismo em uma ameaça existencial, utilizando uma retórica que contrastava os valores americanos com a barbárie dos terroristas. No caso do Afeganistão, a representação do país como um “estado falido” e refúgio da Al-Qaeda legitimou a invasão militar e a adoção de práticas controversas, como a detenção de suspeitos em Guantánamo Bay. Já no Iraque, a alegação de que Saddam Hussein possuía armas de destruição em massa e colaborava com grupos terroristas serviu para justificar uma invasão sem o aval da comunidade internacional, apesar da falta de evidências concretas.

Esses casos ilustram como a securitização pode ser instrumentalizada para mobilizar apoio público e internacional, permitindo a adoção de medidas que, em outras circunstâncias, seriam questionadas sob o ponto de vista ético e legal. A eficácia do discurso na construção de ameaças e na legitimação de ações excepcionais levanta questões importantes sobre o uso da retórica na política internacional e suas implicações para os direitos humanos e a democracia. A Guerra ao Terror, portanto, não foi apenas um conflito militar, mas também uma batalha discursiva que moldou a percepção global sobre segurança, terrorismo e intervenção. Essa análise destaca a necessidade de um olhar crítico sobre as narrativas de segurança e os processos de securitização, especialmente em um mundo onde o discurso político continua a influenciar decisões de vida ou morte.

REFERÊNCIAS

A teoria de securitização e o processo decisório da estratégia militar dos Estados Unidos na Guerra do Iraque. Funag.gov.br. Disponível em: <https://www.funag.gov.br/ipri/btd/index.php/10-dissertacoes/951-a-teoria-de-securitizacao-e-o-processo-decisorio-da-estrategia-militar-dos-estados-unidos-na-guerra-do-iraque>. Acesso em: 19 fev. 2025.

BOOTH, Ken. Security and emancipation. Review of International Studies, vol. 17, n. 4, pp. 313-326, 1997.

BUZAN, Barry. G., Wæver, O., & de Wilde, J. H. Security: A New Framework for Analysis. Lynne Rienner, 1998.

BUZAN, Barry. People, States and Fear: An Agenda for International Security Studies in the Post-Cold War. London: Hasvester Wheatsheaf, 1991.

DUQUE, Marina Guedes. O papel de síntese da escola de Copenhague nos estudos de segurança internacional. Contexto Internacional, v. 31, n. 3, p. 459–501, 2009.

HANSEN, L. Theorizing the Image for Security Studies: Visual Securitization and the Muhammad Cartoon Crisis. European Journal of International Relations, vol. 17, n. 1, pp. 51-74, 2006.

HUGHES, Bryan. Securitizing Iraq: The Bush Administration’s Social Construction of Security, Global Change, Peace & Security: formerly Pacifica Review: Peace, Security & Global Change, 19:2, 83-102, 2007.

JACKSON, R. The 9/11 Attacks and the Social Construction of a National Narrative. In: Morgan, M.J. (eds) The Impact of 9/11 on the Media, Arts, and Entertainment. The Day that Changed Everything?. Palgrave Macmillan, New York, 2009.

President’s Remarks at the United Nations General Assembly. Archives.gov. Disponível em: <https://georgewbush-whitehouse.archives.gov/news/releases/2002/09/20020912-1.html>. Acesso em: 19 fev. 2025.

SANTOS, Wagner Martins dos. Construindo identidades, justificando ações: a construção identitária dos terroristas nos discursos de George W. Bush. Revista Conjuntura Global, v. 7, n. 1, 2018.

WENDT, A. Social Theory of International Politics. Cambridge: Cambridge University Press, 1999.