{"id":984,"date":"2017-04-03T14:49:16","date_gmt":"2017-04-03T17:49:16","guid":{"rendered":"http:\/\/blogs.ufrrj.br\/bloghumanidade\/?p=984"},"modified":"2026-06-18T10:07:15","modified_gmt":"2026-06-18T13:07:15","slug":"o-dialogo-possivel-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/laboratorios.ufrrj.br\/humanidades\/o-dialogo-possivel-2\/","title":{"rendered":"O di\u00e1logo poss\u00edvel"},"content":{"rendered":"<p><strong>A import\u00e2ncia do trabalho de campo para um jornalismo mais humanizado<\/strong> &#8211; <em>por J\u00falia Medeiros<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Apesar de o ano de 2016 ter sido turbulento pol\u00edtica, social e academicamente, rendeu bons frutos ao curso de jornalismo. Os alunos de Jornalismo Jaqueline Suarez, Luis Henrick Teixeira, Gabriella Willer e Larissa Bozi trouxeram para a UFRRJ o pr\u00eamio de Melhor Reportagem Impressa e Melhor Revista Laborat\u00f3rio da Exposi\u00e7\u00e3o de Pesquisa Experimental em Comunica\u00e7\u00e3o (EXPOCOM) da regi\u00e3o Sudeste, concorrendo com a revista <strong><a href=\"https:\/\/issuu.com\/luishenrickteixeira\/docs\/revista_contraponto_ufrrj.compresse\" target=\"_blank\">Contraponto<\/a><\/strong> elaborada para a disciplina de Planejamento Editorial ainda no per\u00edodo de 2015.2, com a orienta\u00e7\u00e3o da docente Ivana Barreto.<\/p>\n<div id=\"attachment_1059\" style=\"width: 348px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1059\" class=\" wp-image-1059\" src=\"http:\/\/blogs.ufrrj.br\/bloghumanidade\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2017\/01\/img1-300x200.jpg\" alt=\"Estudantes mostram com orgulho a revista ganhadora do festival e o trof\u00e9u.\" width=\"338\" height=\"225\" srcset=\"https:\/\/laboratorios.ufrrj.br\/humanidades\/wp-content\/uploads\/sites\/41\/2017\/01\/img1-300x200.jpg 300w, https:\/\/laboratorios.ufrrj.br\/humanidades\/wp-content\/uploads\/sites\/41\/2017\/01\/img1-105x70.jpg 105w, https:\/\/laboratorios.ufrrj.br\/humanidades\/wp-content\/uploads\/sites\/41\/2017\/01\/img1.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 338px) 100vw, 338px\" \/><p id=\"caption-attachment-1059\" class=\"wp-caption-text\">Estudantes mostram com orgulho a revista ganhadora do festival e o trof\u00e9u.<\/p><\/div>\n<p>A tem\u00e1tica surgiu de um questionamento coletivo do grupo, que contava com dois componentes cariocas e dois de outros estados \u2013 S\u00e3o Paulo e Bahia \u2013: \u201co que unia os quatro?\u201d, j\u00e1 que cada um deles gostava de \u00e1reas diferentes. A resposta foi o Rio de Janeiro. Todos eles, naturais do estado ou n\u00e3o, vieram em busca dos seus sonhos.<\/p>\n<p>Aproveitando que a cidade do Rio de Janeiro fazia 450 anos naquele ano, a abordagem da revista foi definida: mostrar um lado do Rio longe dos estere\u00f3tipos. Por que n\u00e3o expor as hist\u00f3rias que o Rio n\u00e3o conta? Para al\u00e9m do lado tur\u00edstico e do lado violento?<\/p>\n<p>As pautas foram sendo atribu\u00eddas de acordo com as \u00e1reas, da forma mais democr\u00e1tica poss\u00edvel. Nessa procura, eles observaram que havia muito sobre o que falar na Zona Norte e Sul, mas n\u00e3o adiantariam \u00f3timos assuntos nos mesmos lugares de sempre se o foco era a diversidade. Por isso, buscaram falar do Rio como um todo.<\/p>\n<p>O grupo aposta que o sucesso da revista e, consequentemente da reportagem, se deve ao lado social do projeto. \u201cA gente sempre conversava que n\u00e3o tinha como voc\u00ea cobrir a mat\u00e9ria e voltar do mesmo jeito que saiu. Sempre voltava diferente, por ter a experi\u00eancia de sentar no sof\u00e1 e ouvir coisas de uma pessoa que perdeu dois filhos de forma b\u00e1rbara. Chorei muito nessa mat\u00e9ria. Voc\u00ea ouvir uma m\u00e3e contando tudo&#8230; \u00c9 uma m\u00e3e, sabe? A gente n\u00e3o pode chegar e dizer \u2018sou jornalista, estou aqui s\u00f3 para ouvir a hist\u00f3ria\u2019. Voc\u00ea tem que ser humano, sim. Acho que, se voc\u00ea n\u00e3o for humano, o neg\u00f3cio nem flui. Esse sentimento contribui, tamb\u00e9m faz parte do conte\u00fado que estamos apurando\u201d, desabafa Jaqueline.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a defini\u00e7\u00e3o de pautas, eles chegaram \u00e0 conclus\u00e3o de que n\u00e3o poderiam fazer nenhuma entrevista por e-mail, deveriam ir a campo para cumpri-las. \u201cN\u00e3o tem como falar de uma cidade de um jeito humanizado sem estar l\u00e1 presente, sem viver um pouco da realidade daquelas pessoas. Ent\u00e3o, como falamos dos ambulantes do BRT, tivemos que andar de BRT, passamos um dia inteiro eu e Larissa, depois a Gabi tamb\u00e9m. A gente teve que sentir na pele cada um desses projetos da Contraponto\u201d, contou Lu\u00eds.<\/p>\n<p>Segundo Jaqueline, a ideia principal era contrapor a m\u00eddia n\u00e3o s\u00f3 nos temas, mas tamb\u00e9m nas abordagens, evitando ficar na superficialidade e no reducionismo. Cada integrante do grupo se responsabilizou por uma pauta, apesar de todos participarem de seu andamento.<\/p>\n<div id=\"attachment_1066\" style=\"width: 353px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1066\" class=\" wp-image-1066\" src=\"http:\/\/blogs.ufrrj.br\/bloghumanidade\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2017\/01\/img2-300x200.jpg\" alt=\"Alunos falam sobre a cria\u00e7\u00e3o da revista Contraponto\" width=\"343\" height=\"228\" srcset=\"https:\/\/laboratorios.ufrrj.br\/humanidades\/wp-content\/uploads\/sites\/41\/2017\/01\/img2-300x200.jpg 300w, https:\/\/laboratorios.ufrrj.br\/humanidades\/wp-content\/uploads\/sites\/41\/2017\/01\/img2-105x70.jpg 105w, https:\/\/laboratorios.ufrrj.br\/humanidades\/wp-content\/uploads\/sites\/41\/2017\/01\/img2.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 343px) 100vw, 343px\" \/><p id=\"caption-attachment-1066\" class=\"wp-caption-text\">Alunos falam sobre a cria\u00e7\u00e3o da revista Contraponto<\/p><\/div>\n<p>Sobre o n\u00edvel do contato com as fontes, Gabriella ainda complementa: \u201centrevistas por e-mail n\u00e3o passam sentimento, parece algo mais frio, a pessoa escolhe as palavras e acabamos por perder a ess\u00eancia. Fica tudo muito mec\u00e2nico. Quando voc\u00ea conversa com o entrevistado, um relato leva a outras perguntas&#8230; Particularmente, estar em contato com o entrevistado e com sua quest\u00e3o me fazem aprender e aplicar at\u00e9 mesmo na minha vida pessoal\u201d, relatou. Larissa concorda: \u201cO jornalismo precisa do contato, precisa da emo\u00e7\u00e3o, precisa estar no lugar para sentir, ver o ambiente, o clima, o que aquela pessoa passa, s\u00e3o relacionamentos quentes. WhatsApp, e-mail e telefone esfriam o relacionamento em vez de trazer uma aproxima\u00e7\u00e3o de fato. As pessoas podem falar qualquer coisa atrav\u00e9s das redes e, pessoalmente, elas falariam de forma diferente por estar te vendo. Fazer mat\u00e9ria por e-mail e um comodismo que, infelizmente, hoje em dia, enfrentamos por causa da correria. A apura\u00e7\u00e3o de campo traz um vi\u00e9s para a mat\u00e9ria muito melhor\u201d.<\/p>\n<p>Durante a busca de aproxima\u00e7\u00e3o com as fontes e no decorrer da produ\u00e7\u00e3o das mat\u00e9rias, foram v\u00e1rios os momentos que emocionaram o grupo. Gabriella Willer cita dois: \u201cum foi quando fomos para Realengo. Nenhum adjetivo descreve o que \u00e9 estar no local que ocorreu a chacina, com as m\u00e3es das crian\u00e7as e um sobrevivente. Todos estavam bem emocionados e contaram como foi a semana at\u00e9 o dia do ocorrido. At\u00e9 hoje n\u00e3o esque\u00e7o da voz da m\u00e3e de Milena, que chorava ao contar sobre sua filha. O outro momento foi quando acompanhamos uma igreja que distribui alimentos e roupas para pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua. Sentamos no ch\u00e3o com eles, ouvimos suas hist\u00f3rias, circulamos por Santa Cruz. Ningu\u00e9m est\u00e1 na rua porque quer, eles n\u00e3o dormem, \u00e9 como se esperassem por ajuda, mas ningu\u00e9m nunca chega. Um deles me disse isso, n\u00e3o tive fala. Uma crian\u00e7a, logo quando chegamos, me abra\u00e7ou, sem eu ter dito nada, e me emocionou muito. S\u00e3o exemplos que durante nosso dia-a-dia deixamos passar despercebidos o quanto s\u00e3o importantes valores e pessoas na nossa vida e ficamos consumidos por \u201cproblemas\u201d um tanto superficiais\u201d.<\/p>\n<p>Lu\u00eds tamb\u00e9m considera a reportagem \u201cPara sempre m\u00e3es de anjos\u201d, feita em Realengo, muito emocionante: \u201cFoi forte. Sa\u00ed de l\u00e1 querendo ligar para minha m\u00e3e, falar com ela. A gente foi at\u00e9 a escola, viu a mudan\u00e7a, as est\u00e1tuas, a dor das m\u00e3es e como aquele lugar mexe com qualquer um que esteja l\u00e1\u201d.<\/p>\n<p>Para Larissa, foi uma desconstru\u00e7\u00e3o de muitos valores: \u201cFazer apura\u00e7\u00e3o no Acari com a Jaqueline foi uma experi\u00eancia extremamente impactante, porque foi a primeira vez que entrei na favela, vi pessoas armadas, passei por elas&#8230; A gente encontrou a m\u00e3e, ouviu a vers\u00e3o dela que, de fato, \u00e9 muito emocionante. A gente s\u00f3 ouve aquilo que a m\u00eddia fala&#8230; \u2018Bandido \u00e9 pra matar, n\u00e9?\u2019 Taxamos de bandido, traficante\u201d.<\/p>\n<p>Para Jaqueline, foi um choque de realidade: \u201cUma mat\u00e9ria que \u00e9 daquelas que voc\u00ea sai se sentindo outra pessoa foi a das pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua. A gente tem um certo preconceito, receio, uma consci\u00eancia coletiva que diz que, se est\u00e1 na rua, \u00e9 porque fez alguma coisa para parar ali. Ter a experi\u00eancia de sentar no papel\u00e3o e conversar com os moradores de rua a noite toda \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o que te muda. Eles falam que o pior n\u00e3o \u00e9 passar frio e fome, sentir que as pessoas nem te enxergam \u00e9 o que mais d\u00f3i. Enxergam um cachorro, mas n\u00e3o enxergam voc\u00ea do lado dela. Esse tipo coisa \u00e9 um tapa na cara porque a gente sabe que, inconscientemente, todo mundo faz.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4><\/h4>\n<p><span style=\"color: #ff0000\">*<\/span>O t\u00edtulo da mat\u00e9ria faz alus\u00e3o ao livro de Cremilda Medina: Entrevista, o Di\u00e1logo Poss\u00edvel. A autoria determina que o di\u00e1logo poss\u00edvel acontece no encontro em que o entrevistador e o entrevistado saem modificados; \u00e9 quando existe uma sensibilidade atrav\u00e9s do comportamento; \u00e9 quando o entrevistador se disp\u00f5e a ouvir sem esperar nenhuma resposta nem a induzir; \u00e9 uma honestidade de ambas as partes na hora do di\u00e1logo, para que haja uma imers\u00e3o e aprendizado na inter-rela\u00e7\u00e3o. Tudo isso pode ser nitidamente observado na revista. Isso s\u00f3 foi vi\u00e1vel por eles terem ido abertos a essa experi\u00eancia e terem ido at\u00e9 cada um dos entrevistados, independente do lugar, da classe social ou econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A import\u00e2ncia do trabalho de campo para um jornalismo mais humanizado &#8211; por J\u00falia Medeiros &nbsp; Apesar de o ano de 2016 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":9,"featured_media":1059,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[41],"tags":[],"class_list":["post-984","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-jornalismo"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.4 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>O di\u00e1logo poss\u00edvel - Humanidades<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/laboratorios.ufrrj.br\/humanidades\/o-dialogo-possivel-2\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"O di\u00e1logo poss\u00edvel - 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