{"id":2076,"date":"2017-07-21T14:17:57","date_gmt":"2017-07-21T17:17:57","guid":{"rendered":"http:\/\/blogs.ufrrj.br\/bloghumanidade\/?p=2076"},"modified":"2026-06-18T10:07:10","modified_gmt":"2026-06-18T13:07:10","slug":"paganismo-para-alem-do-preconceito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/laboratorios.ufrrj.br\/humanidades\/paganismo-para-alem-do-preconceito\/","title":{"rendered":"Paganismo para al\u00e9m do preconceito"},"content":{"rendered":"<p><strong>A desmistifica\u00e7\u00e3o de uma das tradi\u00e7\u00f5es mais antigas do mundo \u2014\u00a0<\/strong><em>por Glauco Lessa e Maiara Santos<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_2084\" style=\"width: 491px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2084\" class=\" wp-image-2084\" src=\"http:\/\/blogs.ufrrj.br\/bloghumanidade\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2017\/07\/FOTO-1.jpeg\" alt=\"\" width=\"481\" height=\"322\" srcset=\"https:\/\/laboratorios.ufrrj.br\/humanidades\/wp-content\/uploads\/sites\/41\/2017\/07\/FOTO-1.jpeg 800w, https:\/\/laboratorios.ufrrj.br\/humanidades\/wp-content\/uploads\/sites\/41\/2017\/07\/FOTO-1-300x201.jpeg 300w, https:\/\/laboratorios.ufrrj.br\/humanidades\/wp-content\/uploads\/sites\/41\/2017\/07\/FOTO-1-768x514.jpeg 768w, https:\/\/laboratorios.ufrrj.br\/humanidades\/wp-content\/uploads\/sites\/41\/2017\/07\/FOTO-1-105x70.jpeg 105w\" sizes=\"auto, (max-width: 481px) 100vw, 481px\" \/><p id=\"caption-attachment-2084\" class=\"wp-caption-text\">Fonte: fanpage da Vila Pag\u00e3.<\/p><\/div>\n<p>Intensa. Suave. Forte. Misteriosa. Sombria. Calada. Clamante. Marginalizada. Escondida. Demonizada. Crente. Pag\u00e3. Tradi\u00e7\u00e3o que chama a aten\u00e7\u00e3o pelas nuances de uma cren\u00e7a associada \u00e0 ideia de pecado. Erro que conduz um senso comum entre muitos e \u00e9 apreciado como belo por tantos outros. Paganismo. Basta um olhar e a magia se desvendar\u00e1.<\/p>\n<p>A f\u00e9 pag\u00e3 \u00e9 entendida por ser uma tradi\u00e7\u00e3o religiosa n\u00e3o-crist\u00e3. Durante boa parte da Idade M\u00e9dia, para os povos crist\u00e3os, n\u00e3o havia tanta relev\u00e2ncia sobre qual era a religi\u00e3o de um povo se ele n\u00e3o acreditava em Cristo. A Ar\u00e1bia, regi\u00f5es mais afastadas da \u00c1sia e a \u00c1frica eram vistas como formadas por povos pag\u00e3os. Mu\u00e7ulmanos, judeus, budistas, hindu\u00edstas e quaisquer outras tradi\u00e7\u00f5es que n\u00e3o cultuavam o messias enviado por um Deus como a salva\u00e7\u00e3o do mundo eram englobados como \u201cpag\u00e3os\u201d.<\/p>\n<p>O significado da palavra nos dias de hoje, no entanto, remete principalmente \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es europeias antes da cristianiza\u00e7\u00e3o, como a cultura n\u00f3rdica e celta. Convencionou-se a chamar essas correntes mais recentes de neopag\u00e3s, sendo uma das mais famosas a Wicca, cuja origem data do come\u00e7o do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>Os wiccanos n\u00e3o possuem grandes problemas com a palavra \u201cbruxaria\u201d e \u201cbruxo\u201d\u200a\u2014\u200ainclusive \u00e9 assim que se identificam e definem sua religiosidade. Entretanto, essas palavras n\u00e3o s\u00e3o carregadas de forma ruim ou negativa para eles. Pelo contr\u00e1rio, nelas h\u00e1 uma hist\u00f3ria de identifica\u00e7\u00e3o e pertencimento t\u00e3o significativa quanto qualquer encontro de f\u00e9. A tradi\u00e7\u00e3o Wicca \u00e9 um resgate de pr\u00e1ticas espirituais anteriores ao Cristianismo e \u00e9 chamada por alguns praticantes de \u201creligi\u00e3o natural\u201d ou \u201ca mais antiga do mundo\u201d, embora seja uma das mais demonizadas no senso comum, pelo desconhecimento das pessoas a respeito.<\/p>\n<p>Comumente associamos bruxaria a maldi\u00e7\u00f5es. Vemos os costumes como ruins, acompanhados ao sentimento de \u00f3dio e dedicados \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o do mal na vida de outras pessoas. No entanto, para os praticantes, a bruxaria e a magia s\u00e3o apenas dois significados para concretizar a conex\u00e3o com o qu\u00ea somente \u00e9 sentido na alma; duas formas de acessar os segredos da natureza e criar um v\u00ednculo mais forte com ela. H\u00e1 rituais, termos e pr\u00e1ticas que podem assustar algum leigo, mas n\u00e3o s\u00e3o atitudes \u201cmalignas\u201d como propagadas ao longo de s\u00e9culos de conv\u00edvio religioso em sociedade.<\/p>\n<p>Rafael Nol\u00eato, 28, fundador e sacerdote da Vila Pag\u00e3, em Jos\u00e9 de Freitas, Piau\u00ed, teve sua educa\u00e7\u00e3o baseada na f\u00e9 crist\u00e3 desde a inf\u00e2ncia, mas sempre sentiu a falta de algo que o completasse. Ainda crian\u00e7a, Rafael percebeu a necessidade de uma espiritualidade que o proporcionasse maior proximidade com a magia, a natureza e diferentes faces divinas. Ao ter contato com a literatura na pr\u00e9-adolesc\u00eancia, o jovem l\u00edder religioso conta como a introdu\u00e7\u00e3o no mundo das pesquisas sobre as tradi\u00e7\u00f5es folcl\u00f3ricas e ancestrais consolidou a identidade religiosa que tanto ansiava.<\/p>\n<p>\u201cO primeiro passo para me reconhecer como pag\u00e3o foi a busca pelo autoconhecimento, atrav\u00e9s de leituras, di\u00e1logos com pessoas mais experientes e visita\u00e7\u00f5es a espa\u00e7os de distintas pr\u00e1ticas religiosas. Ainda pr\u00e9-adolescente, no ano de 2001, senti uma press\u00e3o por parte de alguns membros da fam\u00edlia e colegas de escola. Acredito que essas pessoas tinham medo. Alguns mais curiosos chegavam a perguntar para conhecer melhor minha f\u00e9. Com meu amadurecimento espiritual, fui tendo mais convic\u00e7\u00e3o da minha identidade religiosa e isso me deixou mais confiante\u201d, afirma.<\/p>\n<div id=\"attachment_2088\" style=\"width: 479px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2088\" class=\" wp-image-2088\" src=\"http:\/\/blogs.ufrrj.br\/bloghumanidade\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2017\/07\/FOTO-2.jpeg\" alt=\"\" width=\"469\" height=\"374\" srcset=\"https:\/\/laboratorios.ufrrj.br\/humanidades\/wp-content\/uploads\/sites\/41\/2017\/07\/FOTO-2.jpeg 600w, https:\/\/laboratorios.ufrrj.br\/humanidades\/wp-content\/uploads\/sites\/41\/2017\/07\/FOTO-2-300x240.jpeg 300w, https:\/\/laboratorios.ufrrj.br\/humanidades\/wp-content\/uploads\/sites\/41\/2017\/07\/FOTO-2-88x70.jpeg 88w\" sizes=\"auto, (max-width: 469px) 100vw, 469px\" \/><p id=\"caption-attachment-2088\" class=\"wp-caption-text\">Membros fundadores da Vila Pag\u00e3. (Foto: fanpage da Vila Pag\u00e3)<\/p><\/div>\n<p>A Vila Pag\u00e3 \u00e9 um centro cultural, tur\u00edstico, religioso e habitacional fundado por Rafael e outros membros do C\u00edrculo Piaga\u200a\u2014\u200agrupo de estudos e pr\u00e1ticas da tradi\u00e7\u00e3o piaga\u200a\u2014\u200acom o objetivo de consumar uma religi\u00e3o nativa do estado do Piau\u00ed denominada por \u201cpiaganismo\u201d. O local possui uma \u00e1rea de 70.000 m\u00b2 com espa\u00e7os destinados \u00e0 resid\u00eancias de pag\u00e3os, bosques sagrados, monumentos dedicados \u00e0 divindades pag\u00e3s, templo pag\u00e3o, centro cultural e outros ambientes de fomento \u00e0 cultura piaga e polite\u00edsta. No c\u00edrculo, longe de ser nocivo, h\u00e1 um trabalho de pesquisa de ra\u00edzes ancestrais, cultura, mitologia e hist\u00f3ria. Atrav\u00e9s disso, cria-se uma conex\u00e3o com a magia territorial e consolida uma identifica\u00e7\u00e3o pag\u00e3 regional.<\/p>\n<p>\u201cEncaro a espiritualidade com a merecida seriedade e dedica\u00e7\u00e3o, as pessoas ao redor tamb\u00e9m passaram a dar mais cr\u00e9dito por isso. Acredito que para obter o respeito n\u00e3o bastam discursos, \u00e9 necess\u00e1rio levar sua espiritualidade a s\u00e9rio e pratic\u00e1-la com verdade e amor, mantendo o respeito aos outros. Al\u00e9m de procurar dar o meu melhor por aquilo que acredito, tamb\u00e9m compartilho um pouco com aqueles que buscam conhecer melhor a espiritualidade pag\u00e3 e polite\u00edsta. De forma regular, estou presente em atividades ecum\u00eanicas, palestras, entrevistas \u00e0 m\u00eddia e rodas de bate papo, com o intuito de esclarecer e informar a sociedade em geral sobre a cultura pag\u00e3\u201d, defende Rafael.<\/p>\n<p><span style=\"color: #0000ff\"><strong><a href=\"http:\/\/vilapaga.blogspot.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Saiba mais sobre a Vila Pag\u00e3.<\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4>Um pouco mais de outras bruxarias<\/h4>\n<p>Assim como Rafael Nol\u00eato justifica a cren\u00e7a dele pelo paganismo, existe outra vertente pelo Brasil conhecida como Bruxaria Natural. Estrutura-se em uma filosofia de vida que resgata a import\u00e2ncia de encontrar na natureza o equil\u00edbrio e uma melhor qualidade de vida. Nessa corrente, h\u00e1 uma atua\u00e7\u00e3o significativa que utiliza ervas e cristais para a realiza\u00e7\u00e3o dos ritos. T\u00e2nia Gori \u00e9 fundadora dessa orienta\u00e7\u00e3o religiosa, organizadora da Conven\u00e7\u00e3o de Bruxas de Paranapiacaba e Presidente da Universidade Livre Hol\u00edstica e refor\u00e7a em sua milit\u00e2ncia como diferentes manifesta\u00e7\u00f5es da f\u00e9 pag\u00e3 culminam\u200a\u2014\u200aem sua ess\u00eancia\u200a\u2014\u200ana positividade com o ambiente que nos cerca.<\/p>\n<div id=\"attachment_2093\" style=\"width: 810px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2093\" class=\"size-full wp-image-2093\" src=\"http:\/\/blogs.ufrrj.br\/bloghumanidade\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2017\/07\/FOTO-3.jpeg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"293\" srcset=\"https:\/\/laboratorios.ufrrj.br\/humanidades\/wp-content\/uploads\/sites\/41\/2017\/07\/FOTO-3.jpeg 800w, https:\/\/laboratorios.ufrrj.br\/humanidades\/wp-content\/uploads\/sites\/41\/2017\/07\/FOTO-3-300x110.jpeg 300w, https:\/\/laboratorios.ufrrj.br\/humanidades\/wp-content\/uploads\/sites\/41\/2017\/07\/FOTO-3-768x281.jpeg 768w, https:\/\/laboratorios.ufrrj.br\/humanidades\/wp-content\/uploads\/sites\/41\/2017\/07\/FOTO-3-191x70.jpeg 191w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><p id=\"caption-attachment-2093\" class=\"wp-caption-text\">Conven\u00e7\u00e3o de Bruxas e Magos de Paranapiacaba. (Foto: fanpage da Conven\u00e7\u00e3o)<\/p><\/div>\n<p>O reconhecimento de espa\u00e7os mais abertos para dialogar sobre o paganismo, segundo T\u00e2nia, proporciona abertura para as pessoas se sentirem mais livres ao expressarem aquilo que pensam, sentem e professam. E \u00e9 assim que acontece nos locais em que a bruxa de Santo Andr\u00e9, regi\u00e3o do ABC Paulista, frequenta e atua por uma sociedade mais inclusiva e respeitosa.<\/p>\n<div id=\"attachment_2096\" style=\"width: 358px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2096\" class=\" wp-image-2096\" src=\"http:\/\/blogs.ufrrj.br\/bloghumanidade\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2017\/07\/FOTO-4.jpeg\" alt=\"\" width=\"348\" height=\"233\" srcset=\"https:\/\/laboratorios.ufrrj.br\/humanidades\/wp-content\/uploads\/sites\/41\/2017\/07\/FOTO-4.jpeg 480w, https:\/\/laboratorios.ufrrj.br\/humanidades\/wp-content\/uploads\/sites\/41\/2017\/07\/FOTO-4-300x201.jpeg 300w, https:\/\/laboratorios.ufrrj.br\/humanidades\/wp-content\/uploads\/sites\/41\/2017\/07\/FOTO-4-104x70.jpeg 104w\" sizes=\"auto, (max-width: 348px) 100vw, 348px\" \/><p id=\"caption-attachment-2096\" class=\"wp-caption-text\">T\u00e2nia Gori. (Foto: Facebook)<\/p><\/div>\n<p>\u201cA Universidade Livre Hol\u00edstica, tamb\u00e9m chamada de Casa de Bruxa, \u00e9 uma escola de vinte anos de exist\u00eancia, que trabalha com a qualifica\u00e7\u00e3o profissional nas \u00e1reas de terapia hol\u00edstica e autoconhecimento. E a Conven\u00e7\u00e3o nasceu e existe como um marco de desmistifica\u00e7\u00e3o de magia como um todo. Re\u00fane v\u00e1rias cren\u00e7as e filosofias e cada qual traz uma explica\u00e7\u00e3o de seu caminho. Acredito que a Conven\u00e7\u00e3o \u00e9 um evento que mostra como podemos ter a f\u00e9 que quisermos e, ainda assim, viver em harmonia e respeito um com o outro\u201d, explica T\u00e2nia.<\/p>\n<p>Percebe-se que a express\u00e3o da f\u00e9 pag\u00e3 \u00e9 bastante vivida na busca de conhecimento sobre aquilo que enxergamos a olhos humanos ou da alma. Todavia, as experi\u00eancias adquiridas e as viv\u00eancias com o sobrenatural se mesclam para trazer \u00e0 tona um sentimento de pertencimento capaz de libertar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4>A UFRRJ e o C\u00edrculo Pag\u00e3o<\/h4>\n<p>A estudante de Hist\u00f3ria da Universidade Federal do Rio de Janeiro\u200a\u2014\u200aUFRRJ, Barbara Zatara, por n\u00e3o ser ligada a uma tradi\u00e7\u00e3o pag\u00e3 espec\u00edfica, passou por um grande processo de reconhecimento para se compreender dentre muitos aprendizados. A jovem de 23 anos, que desde os onze estuda sobre paganismo, se enxerga pag\u00e3 h\u00e1 cerca de quatro. Barbara considera o contato que teve no C\u00edrculo Pag\u00e3o da Rural o seu envolvimento concreto com a bruxaria, pois, naquele grupo, a futura historiadora sentiu que pertencia a algo.<\/p>\n<div id=\"attachment_2099\" style=\"width: 478px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2099\" class=\" wp-image-2099\" src=\"http:\/\/blogs.ufrrj.br\/bloghumanidade\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2017\/07\/FOTO-5.jpeg\" alt=\"\" width=\"468\" height=\"263\" srcset=\"https:\/\/laboratorios.ufrrj.br\/humanidades\/wp-content\/uploads\/sites\/41\/2017\/07\/FOTO-5.jpeg 600w, https:\/\/laboratorios.ufrrj.br\/humanidades\/wp-content\/uploads\/sites\/41\/2017\/07\/FOTO-5-300x169.jpeg 300w, https:\/\/laboratorios.ufrrj.br\/humanidades\/wp-content\/uploads\/sites\/41\/2017\/07\/FOTO-5-125x70.jpeg 125w\" sizes=\"auto, (max-width: 468px) 100vw, 468px\" \/><p id=\"caption-attachment-2099\" class=\"wp-caption-text\">Barbara Zatara. (Foto: Document\u00e1rio \u201cAs Tr\u00eas Faces da Deusa\u201d)<\/p><\/div>\n<p>\u201cAcho que entrar na faculdade foi um momento de reafirma\u00e7\u00f5es e muta\u00e7\u00f5es constantes, e as pr\u00e1ticas de f\u00e9 sempre est\u00e3o entrela\u00e7adas nesse processo. Muitos dos meus amigos me chamavam\/chamam de bruxa, por conta da leitura de or\u00e1culos que fa\u00e7o ou pela minha pr\u00f3pria postura perante as quest\u00f5es religiosas. Ent\u00e3o comecei a me questionar e uma vez que encontrei o pertencimento, eu acabei por me colocar socialmente como tal. Sentir-se oprimido, pra mim ainda n\u00e3o \u00e9 uma grande quest\u00e3o. Meu ciclo social est\u00e1 envolto dos amigos da faculdade, que, consequentemente, tem uma mente mais aberta pra esses tipos de quest\u00f5es. Em casa, meus pais sempre souberam do meu interesse por bruxaria e ocultismo e nunca me barraram o conhecimento, mesmo sendo crist\u00e3os. Mas infelizmente eu sei que o preconceito \u00e9 grande e atinge muitos pag\u00e3os no mundo inteiro\u201d, desabafa.<\/p>\n<p>O C\u00edrculo Pag\u00e3o, ao qual Barbara hoje pertence, foi formado pela necessidade de alunos e alunas que, de alguma forma, se identificavam com a f\u00e9 pag\u00e3, xam\u00e2nica ou com a bruxaria. O intuito de realizar encontros dentro do ambiente universit\u00e1rio e efetivar o grupo como uma reuni\u00e3o religiosa dentro do campus era para estimular a troca de experi\u00eancias e ideias sobre o universo da religi\u00e3o pag\u00e3.<\/p>\n<p>Como primeira associa\u00e7\u00e3o dessa natureza criada em uma universidade federal, o C\u00edrculo impulsionou o surgimento de movimenta\u00e7\u00f5es semelhantes em outros institutos federais. Um dos atuais membros, Mateus Cunha, 23, \u00e9 um dos grandes respons\u00e1veis pelo reconhecimento que o grupo ganhou na UFRRJ e fora dela. Aluno do curso de Jornalismo da Rural, Matt\u200a\u2014\u200acomo tamb\u00e9m \u00e9 conhecido\u200a\u2014\u200aproduziu um document\u00e1rio acad\u00eamico que gerou visibilidade ao mostrar como os jovens estudantes pag\u00e3os enxergam e professam o que acreditam. \u201cAs Tr\u00eas Faces da Deusa\u201d narra o envolvimento de tr\u00eas pessoas \u200a\u2014\u200a inclusive Barbara \u200a\u2014\u200a com a Deusa Diana e a rela\u00e7\u00e3o delas com as pr\u00e1ticas pag\u00e3s.<\/p>\n<p>\u201cFazer o document\u00e1rio foi uma li\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica de como sempre na nossa vida devemos fazer apenas o que gostamos e acreditamos. N\u00e3o adianta. A vida \u00e9 uma e a gente tem que viver o que a gente gosta. Quando recebemos a miss\u00e3o de fazer o doc, na hora me veio essa ideia. Pelas limita\u00e7\u00f5es da universidade e financiamento zero, eu tive que fazer um recorte no tema: decidi n\u00e3o fazer um mega document\u00e1rio sobre a hist\u00f3ria do paganismo, mas um filme singelo, onde tr\u00eas amigos que partilham dessa f\u00e9\u200a\u2014\u200acada um \u00e0 sua maneira\u200a\u2014\u200apudessem contar suas hist\u00f3rias, descobertas e tamb\u00e9m dificuldades. E a partir dessas falas, os expectadores passariam a aprender um pouco sobre paganismo ou ao menos compreender como tudo pode ser mais simples do que a gente imagina\u201d, conta Mateus, que ainda ressalta os frutos colhidos at\u00e9 o momento com a repercuss\u00e3o do curta.<\/p>\n<p>\u201cO resultado at\u00e9 ent\u00e3o, com as exibi\u00e7\u00f5es na Mystic Fair e Conven\u00e7\u00e3o de Bruxas, foi extremamente positivo. Consegui cruzas Rio e S\u00e3o Paulo com o filme, em eventos grandes sobre paganismo, e isso foi muito importante pra mim, enquanto profissional. Em ambos os eventos foi o \u00fanico material audiovisual, j\u00e1 que o maior volume sempre \u00e9 palestra ou viv\u00eancia. Ent\u00e3o foi interessante ver tamb\u00e9m como \u00e9 importante a contribui\u00e7\u00e3o do audiovisual dentro do paganismo. \u00c9 um caminho ainda a se explorar. Pra fora, pra pessoas que n\u00e3o s\u00e3o pag\u00e3s, tamb\u00e9m tem sido legal a receptividade. O filme faz parte do cat\u00e1logo da TV Cai\u00e7ara, um portal de filmes independentes. E atrav\u00e9s dele muitas pessoas chegaram a mim tamb\u00e9m\u201d.<\/p>\n<p>Um \u00fanico desejo que une quatro pessoas a milhares de outras espalhadas pelo pa\u00eds: fazer algo positivo a partir do que professam e cultuam em suas vidas. Segundo um dos grandes princ\u00edpios da Wicca, a Lei Tr\u00edplice baseia-se na ideia de que qualquer a\u00e7\u00e3o, seja bondosa, seja maldosa, sempre retorna tr\u00eas vezes mais forte a quem a realizou. Isto \u00e9, se a pessoa pratica atitudes positivas em sua vida e para com os seres que a cerca, tudo volta triplamente melhor; do contr\u00e1rio, triplamente pior. Mesmo que nem todas as pessoas perten\u00e7am \u00e0 Wicca e possuam manifesta\u00e7\u00f5es religiosas diferentes, podemos notar que, se a religi\u00e3o e a f\u00e9 pag\u00e3 se fundamentam no respeito ao que \u00e9 natural e fornecido de bom grado pelos deuses, n\u00e3o deveria haver motivos para personificar o mal para todo e qualquer praticante dos rituais pag\u00e3os.<\/p>\n<p>O que todos desejam, no cerne de suas cren\u00e7as, \u00e9 viver em um mundo mais harmonioso, livre de medos e desrespeitos. Os gostos s\u00e3o plurais e as prefer\u00eancias idem, por isso devemos aceitar que a f\u00e9 nunca \u00e9 \u00fanica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A desmistifica\u00e7\u00e3o de uma das tradi\u00e7\u00f5es mais antigas do mundo \u2014\u00a0por Glauco Lessa e Maiara Santos &nbsp; Intensa. Suave. 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