{"id":1931,"date":"2017-06-24T23:26:46","date_gmt":"2017-06-25T02:26:46","guid":{"rendered":"http:\/\/blogs.ufrrj.br\/bloghumanidade\/?p=1931"},"modified":"2026-06-18T10:07:11","modified_gmt":"2026-06-18T13:07:11","slug":"as-maes-da-rural-e-a-luta-pela-permanencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/laboratorios.ufrrj.br\/humanidades\/as-maes-da-rural-e-a-luta-pela-permanencia\/","title":{"rendered":"As m\u00e3es da Rural e a luta pela perman\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right\">Caroline Feij\u00f3, Lucas Flegler, Olivia Kerhsbaumer<\/p>\n<p>Entrar em uma universidade p\u00fablica, para muitas pessoas, \u00e9 um grande desafio. Permanecer e concluir o curso com facilidade \u00e9 um privil\u00e9gio que nem todos possuem. Um dos motivos que fazem com que estudantes desistam do sonho de possuir o n\u00edvel superior \u00e9 a maternidade. De acordo com o Censo da Educa\u00e7\u00e3o Superior realizado em 2009, as mulheres ocupam 55,1% das vagas nas universidades p\u00fablicas brasileiras e apenas metade das estudantes conseguem concluir o curso. Segundo a Associa\u00e7\u00e3o Nacional dos Dirigentes das Institui\u00e7\u00f5es Federais de Ensino Superior (Andifes), entre as estudantes, quase 70% dos trancamentos de matr\u00edcula ocorrem por licen\u00e7a maternidade.<\/p>\n<div id=\"attachment_1932\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1932\" class=\"wp-image-1932 size-medium\" src=\"http:\/\/blogs.ufrrj.br\/bloghumanidade\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2017\/06\/01-300x199.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"199\" srcset=\"https:\/\/laboratorios.ufrrj.br\/humanidades\/wp-content\/uploads\/sites\/41\/2017\/06\/01-300x199.jpg 300w, https:\/\/laboratorios.ufrrj.br\/humanidades\/wp-content\/uploads\/sites\/41\/2017\/06\/01-768x509.jpg 768w, https:\/\/laboratorios.ufrrj.br\/humanidades\/wp-content\/uploads\/sites\/41\/2017\/06\/01-106x70.jpg 106w, https:\/\/laboratorios.ufrrj.br\/humanidades\/wp-content\/uploads\/sites\/41\/2017\/06\/01.jpg 1000w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><p id=\"caption-attachment-1932\" class=\"wp-caption-text\">Juliana Borges, 26, m\u00e3e do Arun\u00e3<\/p><\/div>\n<p>Pensando na continua\u00e7\u00e3o dessas mulheres na universidade, a estudante e m\u00e3e do Arun\u00e3 (2), Juliana Borges (26), iniciou o Coletivo de Pais e M\u00e3es da UFRRJ (Copama) em 2014. O grupo surgiu para reivindicar o direito da perman\u00eancia estudantil para pais e m\u00e3es da Rural. A luta dessas estudantes com seus filhos se faz presente por meio de f\u00f3runs e de reuni\u00f5es na pr\u00f3pria institui\u00e7\u00e3o. Uma das quest\u00f5es colocadas pelo Coletivo \u00e9 a moradia das m\u00e3es com as crian\u00e7as no alojamento estudantil. De acordo com Juliana, a persegui\u00e7\u00e3o \u00e9 constante e j\u00e1 houve den\u00fancia contra as m\u00e3es ao Minist\u00e9rio P\u00fablico.<\/p>\n<p>\u201cDiziam pelos corredores que as m\u00e3es n\u00e3o poderiam estar nos alojamentos. N\u00f3s entramos em contato com um advogado do Estatuto da Crian\u00e7a e do Adolescente (ECA) e ele explicou que a Constitui\u00e7\u00e3o garante que a crian\u00e7a deve estar junto \u00e0 sua m\u00e3e e o Estatuto da Juventude que a jovem esteja no alojamento\u201d, esclareceu.<\/p>\n<p>O regimento dos alojamentos da Universidade, segundo Juliana, \u00e9 um documento datado da \u00e9poca da ditadura militar e encontra-se desatualizado. N\u00e3o h\u00e1 men\u00e7\u00e3o aos pais e m\u00e3es universit\u00e1rias que precisam do local para morar com seus filhos. \u201cN\u00e3o diz que sim, nem que n\u00e3o.\u201d, comentou. Atualmente, a m\u00e3e que precisa de vaga para morar com o filho tem que insistir para resolver com a reitoria ou conseguir de maneira informal fazendo contato direto com os alojados.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o existe uma regulamenta\u00e7\u00e3o. Estamos tentando di\u00e1logo com o reitor para criar algo espec\u00edfico e n\u00e3o apenas deixar como uma pol\u00edtica da piedade quando algu\u00e9m tem um problema pontual e eles buscam resolver. N\u00f3s queremos uma estrutura. Existem outras institui\u00e7\u00f5es que aceitam m\u00e3es: tem a USP, tem a UFF&#8230;\u201d, ressaltou.<\/p>\n<p>A Universidade Federal Fluminense (UFF), disp\u00f5e de creche universit\u00e1ria onde s\u00e3o atendidas 60 crian\u00e7as, cujas fam\u00edlias que mant\u00e9m v\u00ednculo com a institui\u00e7\u00e3o (professores, funcion\u00e1rios e alunos). Essa tamb\u00e9m \u00e9 uma das demandas das m\u00e3es da Rural: ter um local onde possam deixar seus filhos com seguran\u00e7a para que possam dar continuidade aos estudos. No momento, o que as estudantes t\u00eam \u00e9 um aux\u00edlio financeiro chamado \u201caux\u00edlio emergencial\u201d. O edital que regulamenta o aux\u00edlio creche est\u00e1 previsto para ser divulgado no pr\u00f3ximo semestre.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da incompleta pol\u00edtica assistencialista e da prec\u00e1ria estrutura da universidade, as estudantes-m\u00e3es sofrem forte preconceito no campus, vindo tanto de professores e funcion\u00e1rios, quanto de outros estudantes. Segundo a estudante e m\u00e3e do Francisco (2), Cintia Campos (33), o direito ao espa\u00e7o universit\u00e1rio fica cerceado quando as outras pessoas anulam o fato de que uma m\u00e3e tamb\u00e9m pode ser uma universit\u00e1ria.<\/p>\n<p>\u201cA minha diferen\u00e7a pra qualquer outra estudante que n\u00e3o tem filho, \u00e9 que eu tenho o Francisco, e isso n\u00e3o tira o meu direito ao espa\u00e7o da universidade\u201d, determinou.<\/p>\n<p>Para ela, tanto as mulheres que engravidam no decorrer da gradua\u00e7\u00e3o quanto aquelas que j\u00e1 entram sendo m\u00e3es, desistem do caminho a ser percorrido por conta do forte preconceito que envolve a quest\u00e3o. O ambiente torna-se um fator de press\u00e3o psicol\u00f3gica e de diversas formas de viol\u00eancia quando essas mulheres se veem oprimidas pelas pessoas presentes no ambiente acad\u00eamico.<\/p>\n<div id=\"attachment_1933\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1933\" class=\"wp-image-1933 size-medium\" src=\"http:\/\/blogs.ufrrj.br\/bloghumanidade\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2017\/06\/07-300x200.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"200\" srcset=\"https:\/\/laboratorios.ufrrj.br\/humanidades\/wp-content\/uploads\/sites\/41\/2017\/06\/07-300x200.jpg 300w, https:\/\/laboratorios.ufrrj.br\/humanidades\/wp-content\/uploads\/sites\/41\/2017\/06\/07-768x512.jpg 768w, https:\/\/laboratorios.ufrrj.br\/humanidades\/wp-content\/uploads\/sites\/41\/2017\/06\/07-105x70.jpg 105w, https:\/\/laboratorios.ufrrj.br\/humanidades\/wp-content\/uploads\/sites\/41\/2017\/06\/07.jpg 1000w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><p id=\"caption-attachment-1933\" class=\"wp-caption-text\">Cristiane Alves, 30, m\u00e3e do Miguel<\/p><\/div>\n<p>Segundo a estudante e m\u00e3e do Miguel (1), Cristiane Alves (30), \u00e9 quase imposs\u00edvel passar despercebida tendo um filho na Rural. Ela se sente observada em todos os lugares.<\/p>\n<p>\u201cS\u00e3o olhares no bandej\u00e3o, s\u00e3o olhares quando estou indo para a aula&#8230; Eu tenho que dar conta de muito mais, porque todo mundo presta aten\u00e7\u00e3o na minha nota, no meu desenvolvimento, nas minhas coisas. Eu tenho que ser a supermulher!\u201d, desabafou.<\/p>\n<p>Cristiane mora com seu filho na cabeceira de um dos pr\u00e9dios do alojamento. As cabeceiras s\u00e3o quartos individuais que t\u00eam banheiro e cozinha dentro. Geralmente elas s\u00e3o passadas entre os pr\u00f3prios alunos e configuram o que chamam de \u201cheran\u00e7a\u201d. Embora exista crit\u00e9rio para selecionar quem morar\u00e1 nos quartos, na pr\u00e1tica n\u00e3o funciona corretamente.<\/p>\n<p><strong>Em busca da empatia<\/strong><\/p>\n<p>O que ocorre na universidade \u00e9 um reflexo da sociedade. Julgar a vida dessas jovens estudantes \u00e9 uma pr\u00e1tica reproduzida automaticamente at\u00e9 mesmo entre as pr\u00f3prias mulheres. Na vis\u00e3o de Cintia, pensar que, em alguma inst\u00e2ncia, as mulheres podem somar na luta de outras, \u00e9 encontrar um ponto de apoio no meio de tanta carga.<\/p>\n<p>\u201cUma coisa que o Coletivo tamb\u00e9m quer \u00e9 sensibilizar as outras meninas. Precisamos estar ali dentro, mas ainda n\u00e3o somos aceitas. N\u00e3o existe essa sensibilidade entre as mulheres. Isso \u00e9 uma luta, e \u00e9 algo que eu desejo para o futuro: aceita\u00e7\u00e3o. A gente tem esse direito, porque aquele espa\u00e7o tamb\u00e9m \u00e9 nosso.\u201d, disse.<\/p>\n<p>O problema da falta de empatia vem tamb\u00e9m dos funcion\u00e1rios e professores da universidade. Em alguns casos, n\u00e3o h\u00e1 toler\u00e2ncia com as crian\u00e7as em sala de aula e com a flexibilidade de presen\u00e7a nas datas das provas. Geralmente as estudantes ficam \u00e0 merc\u00ea do bom senso das pessoas, pois n\u00e3o h\u00e1 regras claras que contemplem esses casos.<\/p>\n<p>Em certa situa\u00e7\u00e3o, Cintia conta que precisou da sensibilidade do professor para realizar segunda chamada de uma prova aplicada no dia em que seu filho, com apenas seis meses na \u00e9poca, estava doente. Para a universidade, o atestado m\u00e9dico do beb\u00ea n\u00e3o serviria para abonar a falta da m\u00e3e.<\/p>\n<p>\u201cQuando cheguei ao departamento, eles falaram que eu n\u00e3o ia conseguir fazer a prova porque o atestado n\u00e3o era meu. Ficaram com o documento, mas foi indeferido. O professor me chamou e falou que dar\u00edamos um jeito. Ele me deixou fazer segunda chamada, mas foi algo informal\u201d.<\/p>\n<p><strong>O papel do Copama<\/strong><\/p>\n<p>O Coletivo vem ajudando a construir um cen\u00e1rio de otimismo entre as m\u00e3es da Rural. Das lutas pela perman\u00eancia ao companheirismo entre as mulheres, o grupo se fortalece \u00e0 medida em que as jovens se reconhecem e somam ao movimento de resist\u00eancia. As estudantes unidas j\u00e1 obtiveram algumas conquistas como quatro quartos do alojamento feminino F6, a entrada das crian\u00e7as no restaurante universit\u00e1rio e uma lista de espera para que as m\u00e3es ocupem as cabeceiras.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m das vit\u00f3rias objetivas, h\u00e1 tamb\u00e9m os ganhos afetivos. Cristiane diz ter sofrido bastante preconceito e press\u00e3o psicol\u00f3gica no alojamento onde mora desde o nascimento do seu filho Miguel, mas encontrou for\u00e7as atrav\u00e9s da uni\u00e3o e da hist\u00f3ria das companheiras do Copama.<\/p>\n<p>\u201cEu vejo que \u00e9 gritante a viol\u00eancia contra a mulher. O tempo todo usam formas de oprimir, de ofender. Sendo bem sincera: se eu n\u00e3o conhecesse as meninas e o Copama, eu n\u00e3o aguentaria essa press\u00e3o. Vendo outras m\u00e3es passando por isso, consigo perceber que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 comigo e ter um apoio. Sem esse apoio eu n\u00e3o estaria na universidade\u201d, desabafou.<\/p>\n<p>\u00c9 atrav\u00e9s dessa uni\u00e3o que as alunas conseguem manter a cabe\u00e7a erguida para dar continuidade aos estudos e \u00e0s reivindica\u00e7\u00f5es enquanto m\u00e3es. At\u00e9 que se concretize o projeto da creche universit\u00e1ria, elas dialogam com a reitoria em busca de melhorias para perman\u00eancia. Segundo Cintia, Cristiane e Juliana, uma proposta do atual reitor da UFRRJ, Ricardo Berbara, \u00e9 transformar gradativamente o F6 em alojamento familiar.<\/p>\n<p>\u201cEles n\u00e3o direcionariam nenhuma estudante que n\u00e3o fosse m\u00e3e para l\u00e1, e as que j\u00e1 estiverem, permanecer\u00e3o. Essa \u00e9 a proposta\u201d, explicou Cintia.<\/p>\n<p><strong>M\u00e3e de primeira viagem<\/strong><\/p>\n<div id=\"attachment_1934\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1934\" class=\"wp-image-1934 size-medium\" src=\"http:\/\/blogs.ufrrj.br\/bloghumanidade\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2017\/06\/08-300x200.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"200\" srcset=\"https:\/\/laboratorios.ufrrj.br\/humanidades\/wp-content\/uploads\/sites\/41\/2017\/06\/08-300x200.jpg 300w, https:\/\/laboratorios.ufrrj.br\/humanidades\/wp-content\/uploads\/sites\/41\/2017\/06\/08-768x512.jpg 768w, https:\/\/laboratorios.ufrrj.br\/humanidades\/wp-content\/uploads\/sites\/41\/2017\/06\/08-105x70.jpg 105w, https:\/\/laboratorios.ufrrj.br\/humanidades\/wp-content\/uploads\/sites\/41\/2017\/06\/08.jpg 1000w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><p id=\"caption-attachment-1934\" class=\"wp-caption-text\">Tainara Santos, \u00a025, m\u00e3e de Maria Helena<\/p><\/div>\n<p>Tainara Santos, estudante do s\u00e9timo per\u00edodo de Ci\u00eancias Sociais, descobriu que estava gr\u00e1vida dois dias antes de Maria Helena nascer. O que at\u00e9 ent\u00e3o havia sido diagnosticado como &#8220;problema de est\u00f4mago&#8221;, tinha forma, sexo e carinha de menina devido a uma gravidez&#8230; &#8220;Foi tudo no improviso, ela n\u00e3o tinha nem roupa quando nasceu. Tive que aprender a ser m\u00e3e na marra&#8221;, conta.<\/p>\n<p>A surpresa foi geral. Ela considera que a ajuda que recebe tanto das amigas com quem divide casa, quanto da fam\u00edlia e alguns professores \u00e9 imprescind\u00edvel para sua perman\u00eancia da universidade.<\/p>\n<p>A recente mam\u00e3e n\u00e3o pode aproveitar o resguardo e, um m\u00eas ap\u00f3s o nascimento de Maria Helena, voltou da cidade natal, Itabora\u00ed (RJ), para Serop\u00e9dica. &#8220;Sou bolsista do PIBID, se eu entrasse em exerc\u00edcio domiciliar minha bolsa seria suspensa, ent\u00e3o optei por voltar, com a cara e a coragem&#8221; relembra.<\/p>\n<p>Com o retorno, se deparou com dificuldades estruturais na UFRRJ. Ela considera que a universidade \u00e9 um dos muitos espa\u00e7os p\u00fablicos que n\u00e3o pensa nas m\u00e3es e seus filhos. Falta de transporte para locomo\u00e7\u00e3o entre os institutos, frald\u00e1rio nos banheiros e creche universit\u00e1ria s\u00e3o alguns dos principais assuntos na pauta de reivindica\u00e7\u00f5es que Tainara considera importantes para a constru\u00e7\u00e3o de um local que abriga diferentes estudantes, como \u00e9 o caso da Rural.<\/p>\n<p>&#8220;Depois de ter a Maria Helena, reparei que grande parte dos lugares n\u00e3o tem o m\u00ednimo, que \u00e9 um frald\u00e1rio. Um absurdo que aqui, com a quantidade de alunos que tem, n\u00e3o exista uma creche, que \u00e9 algo que tanto precisamos&#8221;, comenta.<\/p>\n<p>Debaixo de chuva e de sol fica ainda mais complicado se locomover de um local a outro com um beb\u00ea de dois meses nos bra\u00e7os. Tainara confessa que, neste per\u00edodo, deu sorte, j\u00e1 que tem aula em apenas dois institutos. Mas, mesmo assim, conta constantemente com a compreens\u00e3o dos professores quando n\u00e3o consegue estar em sala de aula. Maria Helena acompanha a m\u00e3e em todas as aulas.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m dos muros da sala de aula, uma de suas professoras passou uma lista entre o corpo docente para arrecada\u00e7\u00e3o de produtos para a beb\u00ea. &#8220;Ela chegou com duas bolsas enormes no hospital, com roupas da filha dela e fraldas. Al\u00e9m disso, sempre me pergunta se estou precisando de alguma coisa&#8221;.<\/p>\n<p>Entretanto, ela conta que ainda se depara com a falta de consci\u00eancia de alguns poucos professores, que t\u00eam dificuldades em aceitar as faltas da estudante. &#8220;N\u00e3o s\u00e3o todos que pensam que eu tenho uma filha. L\u00f3gico que filho n\u00e3o \u00e9 doen\u00e7a, que te impossibilite, mas te restringe a determinadas coisas&#8221;. Ela ainda diz que precisa contar com os imprevistos: &#8220;Filho n\u00e3o \u00e9 uma coisa que voc\u00ea pode contar. Em um dia t\u00e1 bem, mas no outro pode estar mal&#8221;.<\/p>\n<p>Pela pouca idade, Maria Helena ainda \u00e9 completamente dependente de Tainara. A beb\u00ea exige aten\u00e7\u00e3o constante da m\u00e3e, que confessa a dificuldade em se dividir entre os estudos e a maternidade. Os trabalhos da faculdade s\u00e3o feitos geralmente de madrugada, enquanto a filha est\u00e1 dormindo. &#8220;\u00c9 dar de mamar com uma m\u00e3o e digitar com a outra&#8221;, conta.<\/p>\n<p>Segundo Tainara, o que mais ajudou a garantir sua perman\u00eancia na universidade \u2013 e em meio \u00e0s diversas dificuldades estruturais que a Rural imp\u00f5e \u00e0s m\u00e3es &#8211; foi o apoio da fam\u00edlia. Ela conta que quando descobriu a gravidez, sua m\u00e3e perguntou o que ela faria a partir dali. &#8220;Respondi que n\u00e3o sabia, mas que n\u00e3o iria parar, essa n\u00e3o era uma op\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p><strong>Durante a gravidez<\/strong><\/p>\n<p>Uma quest\u00e3o paralela que tamb\u00e9m transpassa a quest\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o dos pais e m\u00e3es da Rural \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o da institui\u00e7\u00e3o com as alunas gestantes. A aluna do \u00faltimo per\u00edodo de Ci\u00eancias Sociais, Marielle Mattos est\u00e1 em sua 24\u00ba semana de gravidez. Ela relata a inexist\u00eancia de pol\u00edticas que contemplem os estudantes que est\u00e3o vivendo esse momento. A falta de sensibilidade e a in\u00e9rcia de pr\u00e1ticas com rela\u00e7\u00e3o a esse tipo de quest\u00e3o foram destacados. \u201cO espa\u00e7o da universidade e do mundo do trabalho \u00e9 todo constitu\u00eddo para pessoas que n\u00e3o tenham filhos.\u201d, completa Marielle.<\/p>\n<p>Pesquisando o perfil da Universidade historicamente podemos observar que o ambiente foi pensado para abrigar homens. A figura da mulher dentro do ambiente acad\u00eamico se configura de forma contempor\u00e2nea. Essa progress\u00e3o social s\u00f3 n\u00e3o foi sendo atualizada nas estruturas burocr\u00e1ticas da institui\u00e7\u00e3o. De acordo com Marielle, o que se v\u00ea s\u00e3o relatos de mulheres que tiveram que recorrer \u00e0 assist\u00eancia social e\/ou pol\u00edticas dentro da universidade e que foram tratadas como se estivessem ocupando um espa\u00e7o que n\u00e3o \u00e9 mais delas.<\/p>\n<p>Ainda \u00e9 evidenciada a complexidade do tr\u00e2mite para a concess\u00e3o do exerc\u00edcio domiciliar. A pol\u00edtica n\u00e3o se atenta \u00e0 posi\u00e7\u00e3o de uma mulher gestante, pois rege apenas um m\u00eas de afastamento das discentes esperando seu retorno com desempenho normal sem considerar a fase de vulnerabilidade e adapta\u00e7\u00e3o p\u00f3s-parto, nem os cuidados cl\u00ednicos (vacina\u00e7\u00e3o, acompanhamento pedi\u00e1trico, entre outros) com a crian\u00e7a rec\u00e9m-nascida.<\/p>\n<p>Questionada sobre um poss\u00edvel apoio recebido pelo curso, Marielle destaca a humaniza\u00e7\u00e3o dos docentes e discentes para a cria\u00e7\u00e3o de uma rede auxiliadora que pensa a perman\u00eancia de forma coletiva com os alunos que vivem a maternidade e paternidade. A gestante aponta compreens\u00e3o dos colegas de Ci\u00eancias Sociais para com a causa e a aten\u00e7\u00e3o dos professores em dinamizar as atividades da sala de aula para os alunos que est\u00e3o englobados nessa situa\u00e7\u00e3o especial. \u201cPelo que posso perceber, \u00e9 preciso apontar que o meu curso \u00e9 uma exce\u00e7\u00e3o e n\u00e3o a regra.\u201d enfatiza a entrevistada.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma preocupa\u00e7\u00e3o em manter a rela\u00e7\u00e3o gradua\u00e7\u00e3o\/maternidade saud\u00e1vel de acordo com as necessidades que as m\u00e3es precisam nas \u00e1reas de alimenta\u00e7\u00e3o, moradia estudantil, amplia\u00e7\u00e3o e reformula\u00e7\u00e3o das atividades domiciliares. Al\u00e9m disso, a implementa\u00e7\u00e3o de assist\u00eancia psicol\u00f3gica e social para estudantes que est\u00e3o na condi\u00e7\u00e3o de maternidade e para os seus filhos, tamb\u00e9m foram colocados pela estudante.<\/p>\n<p>Inseguran\u00e7a que ronda a vida das gestantes e m\u00e3es dentro do ambiente acad\u00eamico \u00e9 de ter a gradua\u00e7\u00e3o impactada pela aus\u00eancia de amparo das pol\u00edticas estabelecidas no regimento da Universidade. \u201cComo estou cursando o \u00faltimo per\u00edodo da gradua\u00e7\u00e3o, n\u00e3o estou com inseguran\u00e7as em rela\u00e7\u00e3o a ela, mas imagino como \u00e9 dif\u00edcil para as gestantes que continuaram na gradua\u00e7\u00e3o e ter\u00e3o que lidar com a falta de estrutura e de sensibilidade da universidade\u201d disse.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"M\u00e3es da Rural\" width=\"500\" height=\"281\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/q1yl19ozICM?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Caroline Feij\u00f3, Lucas Flegler, Olivia Kerhsbaumer Entrar em uma universidade p\u00fablica, para muitas pessoas, \u00e9 um grande desafio. 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