{"id":16912,"date":"2026-09-22T18:53:01","date_gmt":"2026-09-22T21:53:01","guid":{"rendered":"https:\/\/laboratorios.ufrrj.br\/humanidades\/?p=16912"},"modified":"2026-09-22T18:53:03","modified_gmt":"2026-09-22T21:53:03","slug":"jorge-romano-os-processos-de-identificacao-que-movem-a-politica-nao-mobilizam-apenas-a-razao-mas-tambem-as-emocoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/laboratorios.ufrrj.br\/humanidades\/jorge-romano-os-processos-de-identificacao-que-movem-a-politica-nao-mobilizam-apenas-a-razao-mas-tambem-as-emocoes\/","title":{"rendered":"Jorge Romano: &#8220;Os processos de identifica\u00e7\u00e3o que movem a pol\u00edtica n\u00e3o mobilizam apenas a raz\u00e3o, mas tamb\u00e9m as emo\u00e7\u00f5es&#8221;"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">GABRIELLY CASIMIRO<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"537\" src=\"https:\/\/laboratorios.ufrrj.br\/humanidades\/wp-content\/uploads\/sites\/41\/2026\/09\/image-3.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-16956\" style=\"aspect-ratio:1.49009900990099;width:602px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/laboratorios.ufrrj.br\/humanidades\/wp-content\/uploads\/sites\/41\/2026\/09\/image-3.jpeg 800w, https:\/\/laboratorios.ufrrj.br\/humanidades\/wp-content\/uploads\/sites\/41\/2026\/09\/image-3-300x201.jpeg 300w, https:\/\/laboratorios.ufrrj.br\/humanidades\/wp-content\/uploads\/sites\/41\/2026\/09\/image-3-768x516.jpeg 768w, https:\/\/laboratorios.ufrrj.br\/humanidades\/wp-content\/uploads\/sites\/41\/2026\/09\/image-3-104x70.jpeg 104w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"> Movimento \u201cDiretas J\u00e1\u201d em Bras\u00edlia<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que faz um eleitor ignorar fatos em favor de uma narrativa? Para o pesquisador Jorge Osvaldo Romano, a resposta n\u00e3o est\u00e1 apenas no que \u00e9 dito, mas em como o discurso \u00e9 constru\u00eddo. Professor titular do CPDA\/UFRRJ (Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancias Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro) e especialista na Teoria do Discurso, Romano dedica sua trajet\u00f3ria a entender as engrenagens do populismo e da constru\u00e7\u00e3o de identidades pol\u00edticas no Brasil. Em um cen\u00e1rio onde a desinforma\u00e7\u00e3o e a polariza\u00e7\u00e3o digital ditam o ritmo das urnas, suas pesquisas revelam que a pol\u00edtica \u00e9, antes de tudo, uma disputa por sentidos.  <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br>As investiga\u00e7\u00f5es conduzidas por Jorge Romano ganharam corpo a partir de uma articula\u00e7\u00e3o metodol\u00f3gica que une a Teoria do Discurso de matriz laclauniana (baseada em Ernesto Laclau e Chantal Mouffe) \u00e0 abordagem de frame analysis (an\u00e1lise de esquemas interpretativos). Sob essa lente, o discurso vai muito al\u00e9m da fala tradicional, engloba propagandas televisivas, m\u00eddias sociais e as pr\u00f3prias performances e a\u00e7\u00f5es significativas dos candidatos. Essa metodologia fundamentou o acompanhamento de registros p\u00fablicos nas elei\u00e7\u00f5es de 2018 (que gerou o livro Raz\u00e3o e Paix\u00e3o, publicado pela Editora Veneta) e de 2022. A partir de julho deste ano, junto com o grupo de pesquisa Discurso, iniciou um terceiro momento para analisar continuidades e descontinuidades nas elei\u00e7\u00f5es de 2026.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignleft size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"252\" height=\"300\" src=\"https:\/\/laboratorios.ufrrj.br\/humanidades\/wp-content\/uploads\/sites\/41\/2026\/09\/Jorge-O-Romano-252x300-2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-16957\" srcset=\"https:\/\/laboratorios.ufrrj.br\/humanidades\/wp-content\/uploads\/sites\/41\/2026\/09\/Jorge-O-Romano-252x300-2.jpg 252w, https:\/\/laboratorios.ufrrj.br\/humanidades\/wp-content\/uploads\/sites\/41\/2026\/09\/Jorge-O-Romano-252x300-2-59x70.jpg 59w\" sizes=\"auto, (max-width: 252px) 100vw, 252px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O grupo de pesquisa Discurso, Redes Sociais e Identidades S\u00f3cio-Pol\u00edticas (Discurso), liderado por Romano, re\u00fane estudantes de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o do CPDA e da gradua\u00e7\u00e3o em Rela\u00e7\u00f5es Internacionais. Atualmente, eles finalizam um livro de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica voltado a traduzir essas teorias para o grande p\u00fablico, com cap\u00edtulos que passam pelo populismo de esquerda e de direita, g\u00eanero e a digitaliza\u00e7\u00e3o do debate. Para Romano, publicar em espa\u00e7os como o Le Monde Diplomatique Brasil \u00e9 uma experi\u00eancia de extens\u00e3o, um compromisso social para munir o eleitor de ferramentas cr\u00edticas que lhes permitam ler as entrelinhas do debate p\u00fablico.<br><br>Nesta entrevista, o pesquisador detalha como os afetos movem as urnas, explica as falhas das narrativas racionais e discute o papel do jornalismo diante da mercantiliza\u00e7\u00e3o do medo e da desinforma\u00e7\u00e3o.<br><br><strong>Em que momento voc\u00ea percebeu que a l\u00f3gica do debate mudou e que o sentimento e as emo\u00e7\u00f5es passaram a valer mais do que os pr\u00f3prios fatos nas elei\u00e7\u00f5es?<\/strong><br><br>Nos \u00faltimos 10 ou 15 anos, passei a lecionar teoria pol\u00edtica e tenho focado nessa an\u00e1lise discursiva. A perspectiva de Ernesto Laclau veio a calhar para compreender os fen\u00f4menos eleitorais e a constru\u00e7\u00e3o das identidades. <strong>O populismo funciona como uma l\u00f3gica pol\u00edtica que divide a sociedade em dois campos antag\u00f4nicos por meio de uma fronteira, construindo um &#8220;n\u00f3s&#8221; contra um &#8220;eles&#8221;.<\/strong> Trata-se de um processo de constru\u00e7\u00e3o contingente, sem essencialismos, o que significa que as identidades e <strong>os processos de identifica\u00e7\u00e3o que movem a pol\u00edtica n\u00e3o mobilizam apenas a raz\u00e3o, mas tamb\u00e9m as emo\u00e7\u00f5es. <\/strong>Isso vai diretamente contra o senso comum da ci\u00eancia pol\u00edtica tradicional, que historicamente via as paix\u00f5es, os afetos e as emo\u00e7\u00f5es como riscos para a a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e como contradi\u00e7\u00f5es da racionalidade, acreditando que as pessoas se organizavam unicamente por interesses definidos de forma racional. Consideramos que os afetos s\u00e3o componentes t\u00e3o fundamentais quanto a raz\u00e3o para mobilizar pessoas e construir subjetividades. O sistema neoliberal, por exemplo, est\u00e1 centrado em um sentimento de ang\u00fastia. H\u00e1 ang\u00fastia porque a economia neoliberal considera a desigualdade positiva e funciona concentrando poder e riqueza atrav\u00e9s de justificativas ideol\u00f3gicas como a meritocracia e o empreendedorismo. Na pr\u00e1tica, ela exclui um grande grupo de pessoas e n\u00e3o oferece seguran\u00e7a para o futuro das novas gera\u00e7\u00f5es. Esse afeto de ang\u00fastia e incerteza \u00e9 facilmente transferido e canalizado para o medo, para a raiva e para o \u00f3dio. <br><br><strong>Como podemos observar esse quadro em nossa conjuntura?<\/strong><br><br>O populismo de direita, como o governo Trump ou a proposta de Bolsonaro no Brasil, se alimenta e mobiliza essa ang\u00fastia para criar medos. Al\u00e9m disso, a permanente invas\u00e3o na televis\u00e3o de cenas de roubo e viol\u00eancia potencializa a sensa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a, fazendo as pessoas demandarem ou aceitarem um Estado policialista repressor que limite liberdades em troca de prote\u00e7\u00e3o. O grande desafio atual \u00e9 que o discurso dos setores progressistas e democr\u00e1ticos costuma ser basicamente um discurso racional, que n\u00e3o consegue lidar bem com o componente emocional. Como o fil\u00f3sofo Baruch Spinoza j\u00e1 dizia no passado, um afeto s\u00f3 \u00e9 enfrentado e freado por outro afeto. Voc\u00ea n\u00e3o enfrenta o discurso do \u00f3dio e da ang\u00fastia apenas com l\u00f3gica. Frente aos afetos negativos que geram tristeza e medo, \u00e9 preciso transmitir afetos que gerem alegria, amor, solidariedade, empatia e o &#8220;amor pol\u00edtico&#8221;, enxergando o outro n\u00e3o como um inimigo a ser eliminado, mas como algu\u00e9m com quem se deve ter empatia. <strong>O enorme desafio das for\u00e7as democr\u00e1ticas hoje \u00e9 construir uma narrativa que atenda \u00e0 demanda real por seguran\u00e7a e prote\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o, mas que consiga transmitir paix\u00f5es e afetividades centradas na justi\u00e7a social, e n\u00e3o na discrimina\u00e7\u00e3o.<\/strong><br><br><strong>Qual o papel do jornalista nesse cen\u00e1rio?<\/strong><br><br>O papel de quem atua no jornalismo \u00e9 ter a consci\u00eancia de n\u00e3o entrar nessa l\u00f3gica do \u00f3dio e reconhecer criticamente que a busca por seguran\u00e7a e prote\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um problema exclusivo da direita; s\u00e3o sentimentos totalmente reais e leg\u00edtimos do cidad\u00e3o. O jornalismo n\u00e3o pode permitir que o medo associe a demanda por prote\u00e7\u00e3o \u00e0 necessidade de mais repress\u00e3o e viol\u00eancia. <strong>O papel atual \u00e9 mostrar como a seguran\u00e7a e a prote\u00e7\u00e3o podem ser alcan\u00e7adas atrav\u00e9s da solidariedade e da empatia, reconhecendo a pluralidade e a diversidade n\u00e3o como uma amea\u00e7a, mas como uma pot\u00eancia de conviv\u00eancia. O jornalismo pode construir uma agenda positiva mostrando o sucesso pr\u00e1tico de pol\u00edticas inclusivas, evidenciando, por exemplo, como as universidades e a sociedade ganharam com a diversidade trazida pelas pol\u00edticas de cotas, tirando esses grupos da subalternidade.<\/strong> Da mesma forma, pode associar a prote\u00e7\u00e3o \u00e0 justi\u00e7a clim\u00e1tica e \u00e0 conscientiza\u00e7\u00e3o pelo fim do desmatamento. Ao mesmo tempo, o jornalismo deve denunciar como essa engrenagem do \u00f3dio e do medo \u00e9 produzida pelas fake news no cen\u00e1rio da p\u00f3s-verdade, onde os crit\u00e9rios de verdade s\u00e3o eliminados e a verdade passa a ser validada apenas pelo que o indiv\u00edduo sente.<br><br><strong>No Brasil, a palavra &#8220;populista&#8221; \u00e9 muito usada de forma pejorativa, quase como um xingamento pol\u00edtico. O que define um discurso populista e por que ele atrai tantas pessoas?<\/strong><br><br>A forma como n\u00f3s percebemos o populismo, a partir da perspectiva de Ernesto Laclau, busca uma defini\u00e7\u00e3o formal e l\u00f3gica, e n\u00e3o de conte\u00fado ideol\u00f3gico. Integrado \u00e0 teoria do discurso, o populismo implica, primeiro, o reconhecimento da divis\u00e3o da sociedade a partir de uma fronteira que separa dois p\u00f3los antag\u00f4nicos: de um lado o &#8220;n\u00f3s, o povo&#8221;, e do outro &#8220;eles, os do poder, as elites&#8221;. O segundo componente \u00e9 que esse &#8220;n\u00f3s&#8221; e esse &#8220;eles&#8221; s\u00e3o contingentes e constru\u00eddos politicamente no momento do confronto. A categoria &#8220;povo&#8221;, portanto, n\u00e3o \u00e9 essencialista; ela se estabelece quando as pessoas se autoidentificam com as demandas daquele grupo \u2014 como o &#8220;povo lulista&#8221; ou o &#8220;povo bolsonarista&#8221;. O terceiro elemento \u00e9 que o populismo articula e junta demandas diferentes que normalmente n\u00e3o estariam unidas atrav\u00e9s da oposi\u00e7\u00e3o a um outro externo que as define. Um exemplo hist\u00f3rico no Brasil foi a campanha pelas Diretas J\u00e1 na transi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica. A luta contra a ditadura reunia anseios de reforma agr\u00e1ria, fim da repress\u00e3o e direitos das mulheres; a pauta das elei\u00e7\u00f5es diretas esvaziou seu sentido estrito e passou a abra\u00e7ar e representar todas as outras demandas daquela manifesta\u00e7\u00e3o de mais de um milh\u00e3o de pessoas. O mesmo ocorreu com a figura de Lula em 2002 e com Bolsonaro representando o seu conjunto de demandas em 2018.<strong> Por isso, o populismo em si n\u00e3o \u00e9 bom nem mau, nem de esquerda ou de direita. \u00c9 uma l\u00f3gica pol\u00edtica, um instrumento de an\u00e1lise da realidade que \u00e9 acionado em momentos de crise de hegemonia. Se acionado pelo lado progressista, busca avan\u00e7ar na justi\u00e7a social; se acionado pelo lado neoliberal e autorit\u00e1rio, aprofunda a desigualdade elegendo culpados. <\/strong>A rea\u00e7\u00e3o negativa parte das elites, para quem tudo o que vem do &#8220;povo&#8221; \u00e9 desagrad\u00e1vel; usam &#8220;populista&#8221; como xingamento para desqualificar as massas por medo de que elas avancem. <br><br><strong>Como o discurso consegue transformar um candidato em um s\u00edmbolo de identidade pessoal? Como a narrativa constr\u00f3i esse sentimento nas pessoas que dizem votar para defender a fam\u00edlia ou o pr\u00f3prio estilo de vida?<\/strong><br><br>A narrativa adquire efic\u00e1cia quando consegue a ades\u00e3o e ativa processos de identifica\u00e7\u00e3o com os significados gerados. A diferen\u00e7a para a ci\u00eancia pol\u00edtica cl\u00e1ssica \u00e9 que ela acreditava que a ades\u00e3o ocorria porque o eleitor concordava racionalmente com o programa do partido. Quando introduzimos a dimens\u00e3o dos afetos, entendemos que o discurso populista possui um b\u00f4nus de efic\u00e1cia porque ele traduz esse programa em sentimentos que geram sentido real para as pessoas. N\u00f3s preferimos trabalhar com a no\u00e7\u00e3o de identifica\u00e7\u00e3o em vez de identidade. A identidade \u00e9 algo mais cristalizado e fixo, enquanto a identifica\u00e7\u00e3o \u00e9 um processo din\u00e2mico e processual pelo qual o indiv\u00edduo vai se reconhecendo em certas demandas e passa a integrar um grupo, sendo remodelado constantemente. Na pol\u00edtica eleitoral, o sonho dos pol\u00edticos \u00e9 cristalizar as identifica\u00e7\u00f5es em identidades fi\u00e9is. \u00c9 o que explica, por exemplo, o fato de a direita manter cerca de 30% de uma base fiel que se reconhece nela independentemente das conting\u00eancias ou den\u00fancias. <strong>Mas a din\u00e2mica real da pol\u00edtica mostra que as identifica\u00e7\u00f5es flutuam de acordo com as narrativas que se imp\u00f5em. Existem demandas chamadas de significantes flutuantes, que n\u00e3o pertencem estruturalmente a um \u00fanico projeto e s\u00e3o disputadas.<\/strong> Veja o caso da &#8220;sustentabilidade&#8221;: \u00e9 uma pauta hist\u00f3rica da agricultura familiar e da agroecologia; contudo, o agroneg\u00f3cio incorporou a sustentabilidade na sua narrativa, mas articulando-a ao mercado e ao lucro, alterando o seu sentido original. <strong>As identifica\u00e7\u00f5es migram conforme a for\u00e7a das hist\u00f3rias contadas.<\/strong> Apelar para as identifica\u00e7\u00f5es flutuantes e para as emo\u00e7\u00f5es n\u00e3o \u00e9 um erro, \u00e9 a engrenagem normal e concreta da pol\u00edtica.<br><br><strong>Voc\u00ea acredita que existe a possibilidade de uma pol\u00edtica sem populismo no Brasil? A sociedade brasileira conseguir\u00e1 voltar a debater propostas e ideias frias ou viramos ref\u00e9ns de uma disputa entre &#8220;quem eu sou&#8221; contra &#8220;o que o outro representa&#8221;?<\/strong><br><br>Eu vejo que a sua pergunta traz no fundo, de forma impl\u00edcita, uma avalia\u00e7\u00e3o que enxerga o populismo como algo necessariamente negativo, como se ele fosse uma deforma\u00e7\u00e3o e n\u00f3s precis\u00e1ssemos ter um saudosismo de um passado sem ele. Mas <strong>a pol\u00edtica \u00e9, e sempre ser\u00e1, uma disputa de projetos; n\u00e3o existe um consenso final absoluto.<\/strong> Se houvesse um consenso absoluto, significaria que todos n\u00f3s estar\u00edamos aceitando passivamente todas as desigualdades que o sistema cria. O conflito pol\u00edtico entre um projeto focado na igualdade e outro focado na desigualdade \u00e9 saud\u00e1vel e vital; sem essa disputa n\u00e3o h\u00e1 democracia real. O limite \u00e9tico \u00e9 que o outro n\u00e3o pode ser transformado em um inimigo a ser eliminado, mas sim em um advers\u00e1rio com quem se compete aceitando regras b\u00e1sicas. O populismo trabalha nessa vis\u00e3o de disputa. <strong>Eu espero que o populismo continue existindo como uma ferramenta capaz de impulsionar o crescimento progressivo dos direitos e da justi\u00e7a social no polo do povo, reduzindo o poder das elites e do sistema neoliberal. <\/strong>Atualmente, o sistema neoliberal \u2014 baseado na financeiriza\u00e7\u00e3o de todas as rela\u00e7\u00f5es sociais \u2014 n\u00e3o aceita mais a democracia. N\u00e3o h\u00e1 mais espa\u00e7o econ\u00f4mico para o retorno de uma democracia liberal cl\u00e1ssica baseada em um Estado de Bem-Estar Social. Consequentemente, os benef\u00edcios e a prote\u00e7\u00e3o social hoje s\u00f3 conseguem ser alcan\u00e7ados por meio de governos populistas progressistas. Essa vis\u00e3o saudosista de uma democracia liberal pura ignora que aquele modelo era profundamente elitista. Naquela velha democracia liberal que tratam como ideal, o pessoal das favelas e os setores populares n\u00e3o existiam no debate; os direitos das mulheres e dos homossexuais eram totalmente limitados, e o restante da popula\u00e7\u00e3o era convocado apenas para apertar o bot\u00e3o nas urnas. <strong>O que n\u00f3s precisamos hoje n\u00e3o \u00e9 o fim do populismo, mas sim a radicaliza\u00e7\u00e3o da democracia atrav\u00e9s da expans\u00e3o e gera\u00e7\u00e3o de novos direitos.<\/strong> E essa expans\u00e3o que tensiona e quebra as amarras das rela\u00e7\u00f5es institucionais vigentes encontra no populismo progressista o seu caminho. Um populismo de direita pode ser essencialmente olig\u00e1rquico; mas o populismo progressista \u00e9 essencialmente democr\u00e1tico porque ele constitui, justamente, o espa\u00e7o de manifesta\u00e7\u00e3o do povo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O livro Paix\u00e3o e Raz\u00e3o (2019) est\u00e1 dispon\u00edvel em <a href=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/livropaixaoerazao.pdf\">https:\/\/diplomatique.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/livropaixaoerazao.pdf<\/a> pode ser baixado gratuitamente.<br><br>Entrevista realizada em maio de 2026<br><br><em>Imagem Diretas J\u00e1<\/em>: Arquivo\/Ag\u00eancia Brasil <br><em>Revis\u00e3o:<\/em> Alessandra de Carvalho e Isabelle Valente <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Exerc\u00edcio da disciplina extensionista Jornalismo Cient\u00edfico, do Departamento de Comunica\u00e7\u00e3o e M\u00eddias (ICHS), ministrada no primeiro semestre de 2026 pela professora Alessandra de Carvalho.<\/em><br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>GABRIELLY CASIMIRO O que faz um eleitor ignorar fatos em favor de uma narrativa? 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