{"id":16878,"date":"2026-09-15T18:09:29","date_gmt":"2026-09-15T21:09:29","guid":{"rendered":"https:\/\/laboratorios.ufrrj.br\/humanidades\/?p=16878"},"modified":"2026-09-16T19:37:17","modified_gmt":"2026-09-16T22:37:17","slug":"entrevistajessicasantana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/laboratorios.ufrrj.br\/humanidades\/entrevistajessicasantana\/","title":{"rendered":"J\u00e9ssica Santana: \u201cDurante muito tempo, predominou a ideia de que a viuvez levava ao recolhimento e ao sil\u00eancio social\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">ISABELLE VALENTE<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"768\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/laboratorios.ufrrj.br\/humanidades\/wp-content\/uploads\/sites\/41\/2026\/09\/image-768x1024.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-16886\" style=\"aspect-ratio:0.7521865889212828;width:258px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/laboratorios.ufrrj.br\/humanidades\/wp-content\/uploads\/sites\/41\/2026\/09\/image-768x1024.jpeg 768w, https:\/\/laboratorios.ufrrj.br\/humanidades\/wp-content\/uploads\/sites\/41\/2026\/09\/image-225x300.jpeg 225w, https:\/\/laboratorios.ufrrj.br\/humanidades\/wp-content\/uploads\/sites\/41\/2026\/09\/image-1152x1536.jpeg 1152w, https:\/\/laboratorios.ufrrj.br\/humanidades\/wp-content\/uploads\/sites\/41\/2026\/09\/image-53x70.jpeg 53w, https:\/\/laboratorios.ufrrj.br\/humanidades\/wp-content\/uploads\/sites\/41\/2026\/09\/image.jpeg 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 768px) 100vw, 768px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Jessica Santana em seu ambiente de pesquisa<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante o Segundo Reinado, no Brasil Imp\u00e9rio, a vida das mulheres era caracterizada pelo confinamento dom\u00e9stico e submiss\u00e3o aos padr\u00f5es patriarcais. Aos olhos da sociedade, elas eram consideradas fr\u00e1geis e incapazes de ter autonomia. Apesar disso, na aus\u00eancia dos maridos, pais ou irm\u00e3os, elas assumiam o posto de comando em suas casas e fazendas, tornando-se o sustent\u00e1culo da fam\u00edlia e longe de serem meras espectadoras da gest\u00e3o comercial de seus c\u00f4njuges.<br><br>Esse cen\u00e1rio de protagonismo feminino \u00e9 evidenciado na tese de doutorado de Jessica Santana Alves, realizada no Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Intitulado \u201c\u00c0 frente dos neg\u00f3cios: a atua\u00e7\u00e3o de vi\u00favas na dire\u00e7\u00e3o de com\u00e9rcios de secos e molhados na cidade do Rio de Janeiro (1850-1889)\u201d, o trabalho investigou a trajet\u00f3ria de mais de 50 vi\u00favas de comerciantes portugueses que passaram a comandar os neg\u00f3cios ap\u00f3s o falecimento dos maridos. A pesquisa aprofundada baseou-se em arquivos digitais, registros paroquiais, processos judiciais e de \u00f3bito, an\u00fancios de jornais e no Almanak Laemmert (registro administrativo que listava os comerciantes no per\u00edodo).<br><br>Nesta entrevista, a pesquisadora, que teve sua tese premiada com men\u00e7\u00e3o honrosa pela Capes (Coordena\u00e7\u00e3o de Aperfei\u00e7oamento de Pessoal de N\u00edvel Superior) na edi\u00e7\u00e3o de 2025, compartilha como iniciou o seu interesse pelo tema, detalha os principais achados e discute o impacto de suas conclus\u00f5es, fundamentais para reconfigurar a compreens\u00e3o sobre o &#8216;futuro&#8217; dessas mulheres. <br><br><strong>Como surgiu o interesse por esse tema? <\/strong><br><br>Surgiu ainda na gradua\u00e7\u00e3o, quando eu comecei a trabalhar com uma documenta\u00e7\u00e3o paroquial do s\u00e9c. XIX sobre Itagua\u00ed, porque participei do Programa de Educa\u00e7\u00e3o Tutorial em Hist\u00f3ria da UFRRJ. Em meio a esses registros, comecei a perceber a presen\u00e7a constante de mulheres vi\u00favas como propriet\u00e1rias. Isso me impulsionou a desenvolver o meu Trabalho de Conclus\u00e3o de Curso (TCC) e, em seguida, a minha disserta\u00e7\u00e3o de mestrado sobre elas administrando bens, negociando, tomando decis\u00f5es e organizando redes familiares e econ\u00f4micas \u2014 o que contrastava diretamente com uma imagem muito difundida sobre as mulheres como figuras reclusas, passivas e afastadas da vida p\u00fablica.Nesse primeiro momento, eu pesquisei mulheres cafeicultoras e, quando quis dar continuidade no doutorado, decidi focar em mulheres comerciantes. Essa categoria j\u00e1 aparecia frequentemente nas fontes de Itagua\u00ed, e eu sempre nutri essa curiosidade sobre mulheres atuando em com\u00e9rcios a varejo. Ao desenvolver a minha tese de doutorado, mudei o recorte espacial: deixei de pesquisar Itagua\u00ed e passei a pesquisar a cidade do Rio de Janeiro, onde encontrei uma gama de documenta\u00e7\u00e3o sobre mulheres comerciantes. Ent\u00e3o, o meu interesse sobre esse tema foi amadurecendo ao longo da minha trajet\u00f3ria de pesquisa, desde o meu segundo per\u00edodo da gradua\u00e7\u00e3o, quando eu comecei a manusear fontes do s\u00e9c. XIX \u2014 e, trabalhando com essa documenta\u00e7\u00e3o, me deparava justamente com trajet\u00f3rias de mulheres que eram diferentes de como eram comumente retratadas.<br><br><strong>Quais foram os desafios metodol\u00f3gicos para encontrar os rastros dessas vi\u00favas, visto que elas costumavam ser silenciadas por tr\u00e1s de imagens de reclus\u00e3o?<\/strong><br><br>O maior desafio metodol\u00f3gico foi conseguir reunir informa\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para reconstruir trajet\u00f3rias porque, quanto mais eu mobilizava as fontes, eu percebia que o problema n\u00e3o era exatamente a aus\u00eancia das mulheres na documenta\u00e7\u00e3o, mas a forma como elas apareciam \u2014 muitas vezes de maneira indireta, fragmentada, ou mediada por discursos masculinos e jur\u00eddicos. Por isso, o maior desafio foi desenvolver esse olhar atento para as fontes e realizar cruzamentos de invent\u00e1rios post-mortem, testamentos, registros paroquiais, processos judici\u00e1rios e publica\u00e7\u00f5es de jornais, para reunir informa\u00e7\u00f5es que muitas vezes n\u00e3o apareciam de forma linear ou expl\u00edcita. Uma das fontes que eu utilizei para identificar as vi\u00favas comerciantes foi o Almanak Laemmert, registro administrativo que listava os comerciantes no per\u00edodo com o nome da pessoa propriet\u00e1ria da casa comercial, o endere\u00e7o e o tipo de atividade. Quando fui pesquisando essas listas enormes, eu via, \u00e0s vezes, &#8220;vi\u00fava Silva&#8221;, &#8220;vi\u00fava Oliveira&#8221; \u2014 a classifica\u00e7\u00e3o do estado civll somada ao sobrenome do marido. \u00c0s vezes aparecia o nome completo da mulher, o que era uma felicidade muito grande, mas na maioria das vezes n\u00e3o. E como achar essas mulheres? Eu tive que fazer uma busca nominativa muito exaustiva: procurava pelo endere\u00e7o da casa comercial, pelo sobrenome; quando achava o endere\u00e7o, \u00e0s vezes encontrava o nome de um s\u00f3cio, e desse nome ia buscando at\u00e9 encontrar os nomes dos pais e o nome da vi\u00fava. Foi um desafio muito semelhante ao trabalho de um detetive. Toda vez que eu descobria o nome de uma dessas mulheres, eu comemorava. Eu tive um corpo documental de mais de 50 mulheres. Somado ao desafio de pesquisar mulheres, houve o desafio de enfrentar certos estere\u00f3tipos voltados \u00e0s vi\u00favas, <strong>j\u00e1 que durante muito tempo predominou a ideia de que a viuvez levava necessariamente ao recolhimento e ao sil\u00eancio social. Mas, quando a gente observa a documenta\u00e7\u00e3o, eu consegui perceber que muitas vi\u00favas exerciam fun\u00e7\u00f5es centrais na administra\u00e7\u00e3o familiar, na circula\u00e7\u00e3o de bens e na manuten\u00e7\u00e3o de redes de poder local.<\/strong> A pesquisa tamb\u00e9m buscou questionar essas imagens cristalizadas e mostrar que essas mulheres atuavam de maneira muito mais complexa do que tradicionalmente se imaginava.<br><br><strong>Quem eram essas mulheres? Qual era o perfil social e de onde vinham essas vi\u00favas que assumiram a lideran\u00e7a dos neg\u00f3cios? <\/strong><br><br>O perfil social dessas mulheres era composto por mulheres livres, propriet\u00e1rias e pertencentes a fam\u00edlias que detinham bens e uma condi\u00e7\u00e3o social mais abastada na cidade do Rio de Janeiro. O m\u00e1ximo de informa\u00e7\u00f5es que eu consegui encontrar foi sobre a origem, ou \u00e0s vezes o cargo do pai, que era comerciante ou ent\u00e3o ocupava cargos militares. O que dava para perceber \u00e9 que elas eram de fam\u00edlias que detinham posses na cidade, e muitos desses arranjos de matrim\u00f4nio tamb\u00e9m serviam para consolidar uma posi\u00e7\u00e3o social. Elas eram, em sua maioria, portuguesas ou filhas de portugueses \u2014 parte dessa corrente migrat\u00f3ria que veio para o Brasil e que, principalmente, saiu da regi\u00e3o do Bispado do Porto para consolidar sua posi\u00e7\u00e3o na sociedade carioca, principalmente atrav\u00e9s do casamento e de uni\u00f5es comerciais. Nos documentos, nunca vinha informando a cor dessas mulheres. Nos poucos casos que eu consegui identificar \u2014 acho que foram 7 \u2014, todas foram classificadas como mulheres brancas, filhas de portugueses, algumas introduzidas nesse universo comercial a partir do casamento com os maridos. Teve um caso de uma dessas vi\u00favas que era \u00f3rf\u00e3: ela estava em um orfanato antes de se casar com esse comerciante, se tornar vi\u00fava dele e herdar o com\u00e9rcio. Ent\u00e3o, pode ser que em alguns casos a origem dessas mulheres n\u00e3o seja t\u00e3o abastada, mas eu n\u00e3o posso afirmar categoricamente. A maioria que eu consegui encontrar s\u00e3o, sim, mulheres propriet\u00e1rias de fam\u00edlias que detinham bens, estabelecimentos comerciais e casas, e que faziam parte de uma sociedade bem posicionada economicamente na cidade do Rio de Janeiro, mesmo que os com\u00e9rcios que elas vieram a herdar n\u00e3o fossem de grande escala.<br><br><strong>\u00c9 poss\u00edvel afirmar que essas mulheres j\u00e1 atuavam informalmente na gest\u00e3o dos armaz\u00e9ns ao lado de seus maridos, antes mesmo da viuvez?<\/strong> <br><br>A trajet\u00f3ria dessas mulheres que estudei revelou que o cotidiano dos neg\u00f3cios estava profundamente entrela\u00e7ado com a vida familiar. As casas comerciais normalmente ficavam em sobrados: no andar de baixo; em cima, ficava a casa em que essas pessoas moravam. N\u00e3o era regra \u2014 algumas casas comerciais v\u00e3o se constituir de outra forma \u2014, mas, na maioria dos casos, era frequente. \u00c9 poss\u00edvel perceber que essa rela\u00e7\u00e3o cotidiana do com\u00e9rcio estava muito entrela\u00e7ada com o cotidiano da fam\u00edlia. Houve um caso emblem\u00e1tico, o da Dona Sabina Rosa, que, antes de se tornar vi\u00fava e ficar \u00e0 frente dos neg\u00f3cios, tomava conta do estabelecimento comercial e administrava aquele com\u00e9rcio enquanto o marido viajava. Um dos casos registrados nos jornais foi o de que o marido ficou ausente por oito meses porque foi para Portugal tratar da sa\u00fade; os documentos mostram que ela lidava com a demanda de clientes e fornecedores, organizava a entrada e sa\u00edda de g\u00eaneros e supervisionava o trabalho dos caixeiros. Isso \u00e9 muito interessante porque h\u00e1 uma invisibilidade desse trabalho, j\u00e1 que essas mulheres muitas vezes estavam ali auxiliando, seja na parte financeira da contabilidade dos neg\u00f3cios, seja prestando alguns servi\u00e7os como, por exemplo, cozinhar para os caixeiros que trabalhavam ali. S\u00f3 que \u00e9 um trabalho que \u00e9 invisibilizado enquanto o marido est\u00e1 \u00e0 frente daquele neg\u00f3cio, ou \u00e9 tido como um trabalho complementar, como se fosse uma extens\u00e3o desta atividade do marido. Quando estudei as cafeicultoras, essas mulheres estavam por dentro das atividades das fazendas e do controle da produ\u00e7\u00e3o aliment\u00edcia, realizando empr\u00e9stimos para a popula\u00e7\u00e3o local, o que ficava, muitas vezes, invisibilizado frente \u00e0s atividades do marido. Eu penso que, sim, elas estavam atuando informalmente na gest\u00e3o desses com\u00e9rcios de secos e molhados e, quando se tornam cabe\u00e7as de casal e assumem a posi\u00e7\u00e3o de vi\u00favas, acabam se tornando oficialmente administradoras desses neg\u00f3cios. Antes disso, por\u00e9m, estavam com essas ajudas permeadas; desde quando se casaram com esses comerciantes, estavam dentro daquele estabelecimento comercial fazendo parte das atividades que eram desempenhadas.<br><br><strong>Como a viuvez impactou a vida dessas mulheres? Ela representou uma desestrutura\u00e7\u00e3o social ou funcionou como um catalisador para o protagonismo econ\u00f4mico delas? <\/strong><br><br>O primeiro impacto que a viuvez causa na vida dessas mulheres \u00e9 elas ocuparem esse lugar de cabe\u00e7a de casal, que \u00e9 o chefe da fam\u00edlia: a pessoa que vai decidir sobre as quest\u00f5es econ\u00f4micas, a organiza\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica daquela fam\u00edlia. Quando assumem essa posi\u00e7\u00e3o, a percep\u00e7\u00e3o social sobre elas \u00e9 como pessoas que respondem por aquela fam\u00edlia. Isso n\u00e3o \u00e9 da noite para o dia; essa percep\u00e7\u00e3o social n\u00e3o \u00e9 autom\u00e1tica. Muitas dessas mulheres tiveram que se reinventar e sempre ir mostrando a sua capacidade. No primeiro momento, quando tiveram que lidar com o processo de invent\u00e1rio (e destaquei muito isso na minha tese), elas v\u00e3o encontrando v\u00e1rias dificuldades para poder se impor, responder por aqueles bens, para cobrar d\u00edvidas. Entra-se, ent\u00e3o, nesse ponto sobre a desestrutura\u00e7\u00e3o social ou catalisador. Acho que \u00e9 um pouco das duas coisas, a depender de como estava a situa\u00e7\u00e3o daqueles bens familiares quando elas assumem essa posi\u00e7\u00e3o de protagonismo, porque, em alguns casos, o marido deixava muitas d\u00edvidas e a casa comercial \u00e0 beira da fal\u00eancia. Quando assumem, elas t\u00eam que lidar com diversas cobran\u00e7as de d\u00edvidas de terceiros: pagar as d\u00edvidas que o marido tinha e cobrar as d\u00edvidas que outras pessoas deviam a ele. Isso poderia significar a desestrutura\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio da fam\u00edlia: ter que vender bens, leiloar bens. Aparecem em not\u00edcias de jornais muitas vi\u00favas leiloando bens familiares para conseguir pagar as d\u00edvidas do falecido marido. <strong>A gente v\u00ea esse protagonismo a partir do momento em que a percep\u00e7\u00e3o social sobre elas vai mudar; as pessoas v\u00e3o come\u00e7ar a olhar para essa mulher como uma pessoa respons\u00e1vel por aquela fam\u00edlia.<\/strong> Isso traz uma emancipa\u00e7\u00e3o, um protagonismo de ela poder responder \u00e0s demandas por conta pr\u00f3pria, mesmo que, \u00e0s vezes, tivesse a figura de um procurador homem, ou de um filho mais velho que auxiliasse na administra\u00e7\u00e3o dos bens; mas a resposta era dela. Era ela quem aparecia como propriet\u00e1ria, era ela quem aparecia como administradora. Ao mesmo tempo, essa desestrutura\u00e7\u00e3o era muito poss\u00edvel: de estar \u00e0 frente desses bens e estar um caos. O que percebi era que essas mulheres tinham um jogo de cintura para poder manter a manuten\u00e7\u00e3o do seu patrim\u00f4nio diante dessas circunst\u00e2ncias.<br><br><strong>Como essas vi\u00favas articulavam sua autonomia comercial sob a vig\u00eancia do restritivo C\u00f3digo Comercial de 1850? <\/strong><br><br>O C\u00f3digo Comercial de 1850 era bem restritivo \u00e0s mulheres, principalmente \u00e0s mulheres solteiras que estavam sob a tutela dos pais e \u00e0s mulheres casadas, que dependiam da autoriza\u00e7\u00e3o dos maridos para poder comercializar oficialmente. Para as mulheres vi\u00favas, ele tinha prerrogativas que elas conseguiam mobilizar a seu favor. A primeira delas \u00e9: na posi\u00e7\u00e3o de vi\u00favas, assumiam a administra\u00e7\u00e3o comercial; eram reconhecidas na sociedade comercial, na pra\u00e7a de com\u00e9rcio, como administradoras daquela casa comercial. Uma das prerrogativas era a separa\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio familiar da sociedade comercial. Ent\u00e3o, por exemplo, vamos supor que o falecido marido tinha uma sociedade comercial com uma outra pessoa, mas o marido faleceu: havia essa divis\u00e3o. Quando a vi\u00fava ia fazer os invent\u00e1rios dos bens, fazer a divis\u00e3o para os filhos, havia essa separa\u00e7\u00e3o do que era o patrim\u00f4nio familiar do que era a casa comercial. Essa divis\u00e3o era boa porque, \u00e0s vezes, havia muitos s\u00f3cios, muitas d\u00edvidas. Na hora de fazer a divis\u00e3o, n\u00e3o atrapalhava os herdeiros e dava mais seguran\u00e7a jur\u00eddica aos bens da fam\u00edlia. O C\u00f3digo Comercial tamb\u00e9m dava possibilidade de a mulher dar prosseguimento \u00e0s atividades com novos arranjos contratuais: continuar com os s\u00f3cios antigos; n\u00e3o precisava abrir m\u00e3o da sociedade que j\u00e1 estava fundada na vig\u00eancia do marido por outra. Se quisesse continuar com os antigos s\u00f3cios, ela poderia continuar. Era uma prerrogativa interessante para ela \u2014 seria vantajoso. Cerca de 39% das vi\u00favas que estudei optaram por formar sociedades comerciais, a ter essa estrat\u00e9gia para auxiliar a administra\u00e7\u00e3o do com\u00e9rcio. Eu penso que esse C\u00f3digo Comercial, quando mobilizado por essas vi\u00favas, tinha prerrogativas que as auxiliavam a ter essa autonomia. <br><br><strong>O que a pesquisa revela sobre o &#8220;futuro&#8221; dessas mulheres e sobre os limites de g\u00eanero da \u00e9poca? <\/strong><br><br>Eu penso que a pesquisa me ajudou muito a reinterpretar o papel social e econ\u00f4mico dessas mulheres, em que elas saem de uma condi\u00e7\u00e3o de meras espectadoras e se tornam protagonistas ativas. No geral, <strong>as pesquisas sobre mulheres vi\u00favas t\u00eam uma tend\u00eancia de pensar que essas mulheres v\u00e3o assumir um protagonismo, ganham uma autonomia, como se n\u00e3o tivessem isso antes; como se n\u00e3o tivessem nenhum protagonismo antes e nenhuma ag\u00eancia antes.<\/strong> O marido faleceu e, no dia seguinte, elas assumem uma ag\u00eancia. O que tentei mostrar com a minha pesquisa \u00e9 que n\u00e3o \u00e9 assim, n\u00e3o acontecia da noite para o dia. Elas tinham ag\u00eancia tanto dentro do ambiente familiar quanto do ambiente comercial, s\u00f3 que essa ag\u00eancia era secundarizada, era invisibilizada. Com a pesquisa eu consegui pensar nessa visibilidade formal de elas assumirem essa posi\u00e7\u00e3o de cabe\u00e7a de casal, de administradoras da casa comercial, mas tamb\u00e9m refletir sobre essa invisibilidade, sobre essa transi\u00e7\u00e3o da invisibilidade para a visibilidade de mulheres que, por muito tempo, foram silenciadas pela figura jur\u00eddica dos maridos. Elas come\u00e7am a aparecer nos registros oficiais dos cart\u00f3rios, dos tribunais, como donas e gestoras. Nesses espa\u00e7os, revelam habilidades que j\u00e1 possu\u00edam anteriormente. Isso n\u00e3o quer dizer que s\u00f3 porque ela tinha um marido comerciante que ela tamb\u00e9m seria uma boa comerciante: \u00e0s vezes a pessoa n\u00e3o tem habilidade, n\u00e3o gosta de trabalhar no com\u00e9rcio, n\u00e3o tem interesse pela administra\u00e7\u00e3o da casa comercial, ou acha aquilo complicado. Em alguns casos, algumas delas preferiam entregar para o s\u00f3cio, porque alguns entram com dinheiro, outros entram com administra\u00e7\u00e3o. Algumas delas optaram por isso: deixar que outra pessoa assumisse a administra\u00e7\u00e3o oficial do com\u00e9rcio, enquanto elas cediam a casa comercial e usufru\u00edam os benef\u00edcios dos lucros. Outras preferiram continuar \u00e0 frente do neg\u00f3cio sem firmar sociedade. Isso mostra um pouco dessa autonomia econ\u00f4mica delas. <strong>Elas n\u00e3o s\u00f3 herdaram bens, mas articularam estrat\u00e9gias complexas com forma\u00e7\u00e3o de sociedade, gest\u00e3o de d\u00edvidas, diversifica\u00e7\u00e3o de investimentos para garantir a manuten\u00e7\u00e3o do status social e sustento da fam\u00edlia. <\/strong>A gente tem que refletir sobre o deslocamento dos limites de g\u00eanero, que eram tradicionalmente impostos aos pap\u00e9is de g\u00eanero, mostrando que elas assumiram responsabilidades p\u00fablicas legais que antes eram reservadas exclusivamente aos maridos, redefinindo fronteiras, inclusive o espa\u00e7o dom\u00e9stico e p\u00fablico, desafiando a no\u00e7\u00e3o de mulher reclusa que s\u00f3 sa\u00eda aos domingos para ir \u00e0 igreja. Sobre o futuro dessas mulheres, eu penso que a pesquisa ajuda a entender como essas mulheres eram estrategistas, como tinham ag\u00eancia nas tomadas de decis\u00e3o, como faziam escolhas para poder conseguir sustentar as suas fam\u00edlias e manter o status social. <br><br>A tese \u201c\u00c0 frente dos neg\u00f3cios: a atua\u00e7\u00e3o de vi\u00favas na dire\u00e7\u00e3o de com\u00e9rcios de secos e molhados na cidade do Rio de Janeiro (1850-1889)\u201d est\u00e1 no Reposit\u00f3rio Institucional de Acervos (RIMA): <a href=\"https:\/\/rima.ufrrj.br\/jspui\/handle\/20.500.14407\/22271\">https:\/\/rima.ufrrj.br\/jspui\/handle\/20.500.14407\/22271<\/a><br> <br>Entrevista realizada em 29 de maio de 2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Imagens: <\/em>arquivo pessoal de J\u00e9ssica Santana Alves<br><em>Revis\u00e3o<\/em>: Pedro Florencio e Alessandra de Carvalho<br><br><em>Exerc\u00edcio da disciplina extensionista \u201cJornalismo Cient\u00edfico&#8221;, do Departamento de Comunica\u00e7\u00e3o e M\u00eddias (ICHS), ministrada no primeiro semestre de 2026 pela professora Alessandra de Carvalho.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ISABELLE VALENTE Durante o Segundo Reinado, no Brasil Imp\u00e9rio, a vida das mulheres era caracterizada pelo confinamento dom\u00e9stico e submiss\u00e3o aos padr\u00f5es [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":54,"featured_media":16897,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[5,9],"tags":[],"class_list":["post-16878","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","category-noticias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.4 - 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