Colóquio Relações Internacionais e Marxismo

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30 de novembro a 02 de dezembro de 2016 – UFRRJ/UFRJ

A corrente marxista ocupa uma posição marginal nos debates tradicionais sobre Relações Internacionais. Quando não ausente, aparece diluída em outros matizes de pensamento, incluída no campo residual das teorias críticas. O ensino introdutório das RI passa ao largo da explicação marxista, por vezes sob o argumento de falta de tempo para Marx finalizar seu estudo sistemático sobre a sociedade burguesa, notadamente quanto ao Estado e o mercado mundial. Esta visão, largamente esposada pela maioria das academias no Brasil e no mundo reluz, não apenas desconhecimento sobre o arcabouço teórico como esconde certa rejeição ao projeto político acoplado à teoria social marxiana. Ainda nos Grundrisse, Marx alude que a tendência de criar um mercado mundial é inerente ao próprio conceito de capital.

Este argumento ratifica o descompasso existente no estudo da área. Antes mesmo do marco temporal adotado, do pós-Primeira Guerra Mundial para o primeiro debate entre realismo e liberalismo, os estudos marxistas já manifestam sua preocupação e sua ênfase à temática internacional. As teorias clássicas do imperialismo, por exemplo, carregam um substrato teórico robusto e consistente. Isto se comprova por sua relevância para o pensamento e as lutas revolucionárias daquele período. A identificação das transformações no modo de produção capitalista, ocorridas a partir do último quartel do século XIX, confere aos teóricos do imperialismo, em que pesem as divergências significativas entre si, uma perspectiva que permite avaliar os fenômenos históricos para além da aparência, atingindo a essência do objeto de análise.

A expansão exponencial do modo de produção capitalista pelo mundo e a reorganização política pós-1945 permitiram o avanço nas reflexões teóricas e nas lutas revolucionárias, como atestam o surgimento de correntes de pensamento que rachavam o monolitismo do bloco anglo-saxão, como as teorias da dependência, e os movimentos de descolonização e de autodeterminação, sobretudo, na África e na Ásia. A emergência da periferia enquanto centro de resistência e de transformação marca as discussões sobre desenvolvimento e subdesenvolvimento, divisão internacional do trabalho, as leituras da formação histórica do sistema capitalista, até os atuais debates sobre globalização, empresas multinacionais, a natureza e papel do Estado no capitalismo, hegemonia, contra-hegemonia e o império americano, compondo o vasto horizonte marxista de pensamento sobre a esfera internacional, cedendo elementos para a construção desta área de conhecimento.

No Brasil, particularmente desde os anos 1970, há a participação ativa e direta de pesquisadores latino-americanos, com figuras de destaque na corrente marxista da Teoria da Dependência ou na Teoria do Sistema-Mundo. Contudo, essa influência não se materializou em uma assimilação mais sistemática e profunda na academia brasileira destas proposições. A relativa ausência da perspectiva marxista como paradigma legítimo de reflexão nas Relações Internacionais no Brasil enfraquece a capacidade de elaboração de alternativas para a atuação internacional de um país dependente, como o Brasil. Esta limitação é, ao mesmo tempo, causa e efeito de uma identificação da intelectualidade de Relações Internacionais e dos operadores de política externa brasileira com o centro hegemônico estadunidense, sua teoria e prática, sendo uma barreira à construção de uma nova identidade profundamente latino-americanista, terceiro-mundista e ligada às causas populares de todo o mundo.

A construção de um campo marxista nas Relações Internacionais no Brasil coloca-se hoje como necessidade. Com o objetivo de supri-la, o Laboratório Interdisciplinar de Estudos em Relações Internacionais (LIERI), da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, e o Laboratório de Estudos sobre Hegemonia e Contra-hegemonia (LEHC), da Universidade Federal do Rio de Janeiro, organizam o colóquio “Relações Internacionais e Marxismo”.

O desenvolvimento do campo marxista pode impactar sobre a área no Brasil em múltiplos aspectos. Teoricamente, permitirá o aprofundamento dos debates, impondo um desafio aos paradigmas dominantes. Por suas características intrínsecas, o marxismo enfatiza o aspecto histórico e a possibilidade de transformação das estruturas internacionais. Por romper com a compartimentalização do conhecimento, é a única abordagem capaz de confluir a Economia Política Internacional, as Teorias de Relações Internacionais e a Geopolítica. Ademais, o marxismo transcende o campo da teoria, tendo um papel político – o qual é indissociável do científico – e mesmo social: a inclusão de perspectivas que emergem dos setores explorados e oprimidos. O marxismo vai além de outras correntes críticas, que apontam, corretamente, a inexistência de neutralidade axiológica nas Relações Internacionais. Ele assume organicamente um compromisso ao teórico e político com os oprimidos do mundo.

Este colóquio terá, como desafio, a construção de uma unidade na diversidade de concepções marxistas. Há elementos de convergência, tanto teóricos, como metodológicos e políticos. Ainda que existindo leituras distintas, há um conjunto conceitual que aproxima e estabelece pontos mínimos de contato, como a dependência, a hegemonia e o imperialismo. Neste sentido, ressalta-se a convergência do evento com o calendário internacional de comemorações dos cem anos de lançamento da obra seminal para as Relações Internacionais, O Imperialismo, etapa superior do capitalismo, de Vladimir Lênin e a menos de um ano do centenário da Revolução Russa.

Para a construção deste campo comum do marxismo nas Relações Internacionais brasileira, o evento se propõe a ser um espaço de reflexão duplo, tanto interno ao próprio marxismo, como crítico em relação aos outros paradigmas. No que diz respeito ao colóquio, serão organizados dois espaços distintos, mas complementares, de discussão sobre os temas e conceitos próprios que são parte do patrimônio teórico marxista (imperialismo, dependência, hegemonia, entre outros), e outro onde se exercerá o processo de análise crítica em temas centrais das Relações Internacionais (teoria, política externa, integração regional, entre outros).

Por fim, este evento se dará nos marcos não só da elaboração marxista, mas de uma perspectiva desde a periferia. Procurar-se-á contribuir para colocar em evidência o papel do antagonismo Centro-Periferia no âmbito global, nacional e local. Isso significa pensar as Relações Internacionais a partir das experiências da realidade periférica. Assim, este evento não poderia ser mais propício: ocorrerá num país da periférica América do Sul, parte do Sul Global, e terá como um dos seus organizadores uma universidade situada na periferia do Rio de Janeiro, a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, localizada em Seropédica.


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